por Alexandre Schwartsman Folha de São Paulo
Na semana passada, procurei mostrar que a recessão iniciada em meados do
ano passado resulta da política econômica que vigorou com maior
intensidade de 2011 a 2014.
As consequências de expansão desmesurada do gasto, descaso com a
inflação, controles de preços e intervenções no domínio econômico foram
aceleração inflacionária, deficit externos crescentes, desarranjo de
setores importantes e aumento considerável da dívida pública, sem, é bom
deixar claro, conseguir acelerar o crescimento. Além disso, há razões
para crer que, entre as heranças da experiência desastrada do período,
se encontra também a impossibilidade de políticas anticíclicas.
O nome, algo pomposo, representa medidas que poderiam atenuar, ou
abreviar, a recessão. Em particular, uma queda de atividade, como a
observada neste ano, poderia ser combatida com aumento do gasto e
redução da taxa de juros, conforme defendido por alguns.
Não se trata de nada incomum. Outros países o fizeram, por exemplo, em
resposta à crise de 2008, e mesmo o Brasil optou por esse caminho
naquele momento.
Resta, porém, saber por que foi possível fazê-lo à época, mas não agora.
A resposta é óbvia, mas, como parece haver quem ainda não tenha entendido a natureza do problema, o melhor é explicitá-la.
Tome-se o caso do Brasil em 2008-2009. O país vinha de alguns anos de
superavit primários superiores a 3% do PIB, que trouxeram a dívida
pública de patamares próximos a 70% do PIB entre 2003-2005 para 55% do
PIB às vésperas da crise.
A inflação, que havia superado em média por 1,4 ponto percentual a meta
no período 2003-2005, ficou ao redor daquela entre 2006 e 2008. Em
resposta a esse desempenho, as expectativas de inflação quando o BC
começou o processo de redução de juros em 2009 estavam apenas levemente
acima de 4,5%, revelando uma credibilidade até então inédita quanto ao
compromisso da instituição com o regime.
Por fim, o balanço de pagamentos registrara superavit de US$ 45 bilhões
entre 2003 e 2007 (média equivalente a 1,1% do PIB por ano), enquanto o
BC acumulara perto de US$ 190 bilhões em reservas adicionais.
Posto de outra forma, a sabedoria não foi reagir à recessão com o
afrouxamento das políticas fiscal e monetária (assim como o uso de parte
das reservas), mas sim ter preparado o terreno para isso, reduzindo a
dívida, controlando a inflação, acumulando superavit externos e
reservas.
Agora, com inflação na casa de 9,5% (7,7% caso desconsideremos as
tarifas públicas), não há espaço para reduzir a taxa de juros sem criar
um problema mais sério à frente.
Já o crescimento da dívida pública atingiu mais de 9% do PIB nos últimos
12 meses, sugerindo que sua dinâmica consegue ser pior do que a
observada mesmo em economias com dívidas maiores.
Isso fica transparente na evolução do prêmio de risco associado ao
Brasil, que foi a 3,7% ao ano, contribuindo para aprofundar a recessão.
Nesse contexto, só alguém sem a menor noção de funcionamento da economia
e da história recente do país poderia sugerir aumento do endividamento
como a solução para nossos males. Se isso bastasse, não estaríamos na
situação complicada em que nos encontramos. Há risco que até o governo
tenha sentido o tamanho da encrenca, mas certamente não os keynesianos
de quermesse.
EXTRAÍDADEROTA2014BLOGSPOT





0 comments:
Postar um comentário