JOSÉ NEUMANE PINTO
Suspeitos que podem atrapalhar investigação devem se licenciar de seus cargos no poder
Adaptada aos primórdios da União
Soviética, a fábula do bode na sala tem tudo que ver com nossa
atualidade: incomodados com o excesso de pessoas num apartamento
coletivo, seus moradores se queixaram a um comissário do povo, que os
aconselhou a pôr um bode em casa. Uma semana depois voltou ao local e,
ao retirar o bode, melhorou a situação, que, é claro, tinha piorado
muito.
Esta terra do samba, do frevo e do
futebol tornou-se pátria do incômodo de 1 milhão de desempregados,
previsto para 2015. E, talvez, ainda viverá funestas consequências nos
próximos “meses” (apud Joaquim Levy), com mais empresas falindo
e menos serviços funcionando, sob a égide de uma destrambelhada que
assiste, aparentemente impávida, à degeneração econômica, política,
social e, sobretudo, moral deste “país do pixuleco”. Neste, bandidos são
bajulados como heróis que empregam trabalhadores e guerreiam pelo povo e
vilões são apenas seus ex-sócios que colaboram com a Justiça ao
denunciá-los.
Neste atual descalabro, uma nobreza nada
nobre se protege atrás de um vergonhoso muro da ira da plebe espoliada.
Antigamente a corrupção era um empreendimento pessoal e assim foi até
chegarmos a este século 21, quando virou projeto sistêmico partidário de
poder para enriquecer uma súcia que se pretende monopolista de todas as
virtudes e benesses.
Protegida por placas de metal na festa
da Independência, que deveria ser de todos, a capitã da nave à deriva
pratica o voo da barata tonta, que não é aleatório, como querem fazer
crer sócios e cúmplices, mas método de embromation. A “gerenta”, posta no poder pelo padim,
joga contra o bolso esvaziado do pobre, que finge representar, cartadas
de um pôquer funesto. No ano passado conseguiu da base genuflexa no
Congresso autorização para burlar a lei, ao não cumprir a obrigação
precípua e intransferível de produzir saldo nas contas públicas. Ainda
assim, recorreu a “pedaladas”, atropelando de novo a mesma lei para
fechar balanço mentiroso.
Neste ano recorreu a um providencial
ministro neoliberal para tranquilizar seus clientes com banco. Este
chegou prometendo a volta do superávit primário para, em seguida, mandar
para o Legislativo um Orçamento deficitário. A obrigação de só gastar o
que é capaz de arrecadar não é apenas a pedra de toque da Lei de
Responsabilidade Fiscal, mas também a regra fundamental de qualquer
gestão que se preze, no lar ou na República. Só que a corrupção
sistêmica aparelhou e emparedou Poderes e instituições em postos-chave,
capazes de sustentar o insustentável peso de um Estado estroina e de uma
casta cujas máculas fazem apodrecer nossa democracia, para gáudio do
bando que continua no comando.
Será esta democracia apenas um jogo de
poder sem regras do voto conquistado com dinheiro desviado do bolso do
próprio cidadão enganado? Voto nem sempre bem contado…
Edinho Silva, tesoureiro da campanha da
“presidenta” reeleita, é acusado pelo empreiteiro Ricardo Pessoa, da
UTC, de tê-lo ameaçado de suspender seus contratos privilegiados com
sobrepreço em estatais se não doasse para cobrir despesas da reeleição
de Dilma. Licitação viciada e lavagem de propina pela Justiça Eleitoral
são crimes graves e, no caso, sobrepostos. “Eu segui as orientações da
presidenta Dilma, ou seja, conversei com empresários brasileiros
seguindo os princípios éticos e morais”, ele garantiu. Se for verdade,
por que ela não o afasta até provar que o colaborador (antes da campanha
e agora da Justiça) mentiu ao juiz e é, então, mentalmente incapaz,
única condição para explicar atitude de quem agrava a própria pena?
A mesma testemunha privilegiada acusou
dois varões do Senado de crimes semelhantes: o chefe da Casa Civil da
reeleita, Aloizio Oliva, e o candidato derrotado a vice pelo principal
partido da oposição, Aloysio Ferreira. Ambos garantem que as doações
foram legais.
Mas o mantra petista não ganha foros de
verdade por ser repetido pelo PSDB. A doação somente é legítima se sua
origem for limpa. Cabe aos agentes da Operação Lava Jato provar se é ou
não. Se não for, Pessoa terá as penas agravadas e Suas Excelências, a
reputação recuperada. Até se esclarecer isso, porém, eles teriam de se
licenciar de seus cargos para não atrapalharem as investigações – dois
usando poder de governo e o terceiro dificultando a oposição a se opor.
Mas os tucanos ficam de bico fechado. E
madame “gerenta” permite que seu anspeçada solape o que ainda resta ao
próprio governo do mínimo de credibilidade com lances geniais no xadrez
político, tais como o que provocou a ida de Eduardo Cunha para as hostes
inimigas e o abandono da coordenação política pelo vice, Michel Temer.
Isso sem falar nos roques que ela empreendeu ao aceitar o superávit
primário; tentar ressuscitar imposto renegado em época de presidente
popular (Lula) e maioria de fato; encaminhar Orçamento deficitário e,
portanto, irregular para o Congresso; anunciar que mandaria suplemento
equilibrando as contas; e cobrar pela “travessia” (sem Moisés).
Com a oposição sem rumo nem projeto, não
é de prever bonança para o Brasil, ainda que dona Dilma venha a ser
deposta. Mas também não é difícil verificar que, ao apostar na fábula do
bode com que o comissário do povo driblou os incomodados, a
“presidenta” de Edinho e Oliva não faz o papel que se atribui de
malandrinha que indica a solução errada para vender o falso alívio da
retirada do bode malcheiroso, barulhento e bagunceiro da sala da “minha
casa, minha vida”. Ela, ao contrário, é o bode propriamente dito. Ou
seja: se pode vir a ser ruim sem Dilma, pior será que ela continue
protegendo seus suspeitos do peito. E nos dando a certeza, que se
confirma a cada dia, de que ou é incapaz de sentir o fedor que lhe entra
pelas narinas ou é cúmplice de quem produz todo esse material orgânico
que torna insuportável a vida de seus desditados condôminos.
Jornalista, poeta e escritor
(Publicado na Pag.A2 do Estado de S. PauloEXTRAÍDADENEUMANNE.COM





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