editorial do Estadão
Depois de a presidente Dilma Rousseff ter afirmado durante a campanha
pela reeleição que o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e
Emprego (Pronatec) ofereceria mais de 3 milhões de vagas em 2015, o
ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, comunicou a abertura de
apenas 1 milhão.
A redução do número de vagas no programa, que foi uma das vitrines
eleitorais de Dilma para atrair o eleitorado jovem, causou perplexidade
nos meios educacionais, uma vez que a ampliação do ensino profissional é
condição indispensável para a formação do capital humano de que o País
necessita para retomar o crescimento e passar a níveis mais sofisticados
de produção.
“Há uma enorme deficiência de mão de obra técnica no País, onde ainda
existe uma forte crença de que todo mundo tem de ser doutor para ser
bem-sucedido. Temos um número enorme de alunos saindo das faculdades sem
emprego, enquanto falta mão de obra para construir hidrelétricas”, diz o
pró-reitor da Fundação Getúlio Vargas e membro da Academia Brasileira
de Educação, Antonio Freitas.
“A redução de vagas é um tremendo golpe contra as empresas e as escolas
técnicas que aderiram ao programa. É ruim para o País, como estratégia
de desenvolvimento econômico. E também é ruim para os alunos e suas
famílias, por razões sociais, uma vez que não terão oportunidade de
estudar e crescer”, afirma a física Amabile Pácios, presidente da
Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep).
Os efeitos sociais e econômicos perversos causados pelo drástico corte
no número de vagas no Pronatec mostram o preço que a sociedade tem de
pagar quando a educação é conduzida com base em interesses políticos, e
não a partir de critérios técnicos. O que ocorreu com o Pronatec também
está acontecendo com outros programas educacionais, como o Ciência sem
Fronteiras e o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), que também
foram vítimas de demagogia política, marketing eleitoral, incompetência
administrativa e insuficiência de recursos.
Lançado em 2011, o Pronatec é um programa de ensino técnico de nível
médio que cresceu de forma desordenada, sem controle rigoroso da
aplicação de recursos, sem professores em número suficiente e, em vários
Estados, sem condições mínimas de funcionamento por falta de
instalações adequadas. Originariamente, o programa foi implementado por
meio de institutos federais, escolas técnicas vinculadas a universidades
federais, a redes públicas estaduais e a centros de formação
administrados por entidades empresariais. Com o tempo, também passou a
contar com uma rede de escolas particulares conveniadas.
A incapacidade do governo Dilma para gerenciá-lo com eficácia é uma das
marcas do Pronatec. No início, houve confusão com as diretrizes
pedagógicas de alguns cursos do programa, que não levaram em conta uma
avaliação rigorosa das necessidades do mercado de trabalho, e falta de
articulação com o setor produtivo.
Entre 2012 e 2013, descobriu-se que os contratos de financiamento com a
rede conveniada não continham cláusulas que detalhassem metas, prazos e
garantias, exigindo apenas termo de adesão ou de colaboração. Em 2014, o
governo atrasou os repasses das escolas conveniadas, que ficaram sem
condições de pagar materiais já adquiridos e os salários dos
professores. Os auditores da Controladoria-Geral da União (CGU)
apontaram que o sistema de gestão do Pronatec não era capaz de aferir o
número de alunos matriculados que se formaram efetivamente.
Em 2015, as confusões administrativas foram tantas que, em março, o
Ministério da Educação teve de adiar as datas de inscrição e o início
das aulas. Ao longo de todos esses anos, o governo também não adotou
mecanismos que permitam avaliar a qualidade dos cursos, que têm duração
média de dois anos.
A redução do número de vagas oferecidas pelo Pronatec é mais uma amostra
da forma desastrosa e incompetente como o ensino vem sendo administrado
na Pátria Educadora.
extraídadatribunadainternet





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