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09:36
ANDRADEJRJOR
EUGÊNIO BUCCI o estado de são paulo

Nunca tantos falaram
tanto em estelionato eleitoral. Nunca de modo tão justificado e
verdadeiro. Dilma Rousseff, depois de reeleita, não apenas passou a
praticar o oposto do que prometera, como adotou as medidas que, segundo
dizia durante a campanha, os seus adversários implementariam para fazer a
alegria dos banqueiros. E isso assim, de um dia para o outro, sem nem
disfarçar. Tão logo faturou as eleições, abençoou a elevação dos juros
pelo Banco Central, convocou a doutrina Chicago para encabrestar o
Ministério da Fazenda e começou a comer pelas bordas as tais "conquistas
sociais" da tal "classe trabalhadora". Se isso não é estelionato, um
pérfido estelionato ideológico, revogue-se o dicionário.
No
governo estadual foi a mesma coisa. Gastando rios de dinheiro em
propaganda oficial para convencer o eleitor de que a Sabesp esbanjava
competência e nunca deixaria faltar água, Geraldo Alckmin reelegeu-se
com um dilúvio de votos. Depois de vitorioso admitiu que o racionamento
já existia. Outra vez estelionato. Estelionato hídrico.
Triste de
quem acreditou numa, infeliz de quem pôs fé no outro. Foram todos
engambelados. A política não é mais o reino das inverdades dissimuladas
(bons tempos aqueles, em que valiam os ensinamentos de Platão sobre a
mentira prudente que protegia a polis). Hoje a política dispensa a
dissimulação; seus profissionais não se envergonham de bradar o perfeito
contrário do que pretendem fazer. Mentir pouco é bobagem. É preciso
afrontar a verdade com todas as forças da bilionária publicidade oficial
(e da propaganda eleitoral, o que acaba dando no mesmo). Há que mentir,
aos berros, de dedo e riste, em choque frontal com a verdade.
Uma
vez consumada a lorota, chega então a hora de mentir ainda mais. Se a
mentira tem pernas curtas, é preciso dotá-la de próteses artificiais. É o
que faz Dilma Rousseff. Cumprindo religiosamente a cartilha do PSDB,
segue dizendo o contrário. E jura que as medidas recessivas que adotou
não são recessivas. "Ajustes fazem parte do dia a dia da política
econômica", declarou no início da semana. "Ajustes nunca são um fim em
si mesmo, são medidas necessárias para atingir objetivos de médio prazo,
que em nosso caso permanece o mesmo, crescimento econômico com justiça
social. Não promoveremos recessão e retrocesso."
Eis que, na
cabeça presidencial, o monetarismo ortodoxo que eleva juros e corta o
orçamento nada mais é que uma ferramenta para o "crescimento econômico
com justiça social". Você acredita? Não? Pois há quem esteja abismado
com o fato de que Dilma, pelo menos ela, dá sinais de acreditar em si
mesma. Não se sabe bem se ela mente quando diz ou se mente quando
acredita sinceramente no que diz. Ela acredita no monetarismo
socialista.
Mais alguns dias e veremos o governo federal
convocando as centrais sindicais (devidamente cooptadas) para
organizarem marchas de militantes (devidamente pagos) portando faixas e
cartazes com os dizeres: "Mais juros", "mais cortes" e "mais banqueiros
no Banco Central". Tudo em nome do "crescimento econômico com justiça
social" (que o cacófato não traia ninguém).
Do lado do governo
paulista, o alongamento das pernas da mentira conta com o luxuoso
auxílio dos eufemismos de ocasião. Providencialmente rebatizada de
"crise hídrica", a falta d'água aparece como um fenômeno imprevisível. É
como se não tivesse sido fabricada pela incompetência e pelas falhas de
um sistema de dutos que deixa vazar quase quatro de cada dez litros de
água tratada - isso antes que a pobre água chegue à casa dos crédulos
eleitores. A "crise hídrica" entra em cena como um revés climático que
simplesmente caiu do céu, o mesmo céu do qual as chuvas não caem mais.
Na
escola política da mentira frontal e afrontosa (a mentira retumbante
que não precisa mais dissimular coisa alguma, nem a si mesma), a
expressão "crise hídrica" é um disparate que fala javanês. Com termos
empolados, esconde até mesmo a noção de escassez. Em lugar de "escassez
hídrica" (que seria um eufemismo igualmente ridículo, mas nem tão
mentiroso assim), é mais conveniente falar em "crise". É como se ninguém
tivesse culpa de nada. Crises, afinal de contas, acontecem pela
combinação caótica de fatores independentes uns dos outros, que não
estavam sob o controle de uma organização minimamente racional. Uma
crise política resulta da confluência de tensões que desgraçadamente
explodiram. A mesma coisa se pode dizer das crises financeiras. Elas não
têm autores definidos, seus causadores são relativamente difusos. A
expressão "crise hídrica", portanto, faz parecer que a calamidade
pública não tem responsáveis.
A outra vantagem para o poder é que
essa expressão, "crise hídrica", induz o crédulo eleitor a pensar que, a
exemplo do que acontece nas "crises políticas" ou nas "crises
financeiras", os políticos e os governantes são os artífices da solução.
Nesse caso, porém, as autoridades que aí estão são justamente a causa
principal do problema, mas disso se esquece. Nada mais cômodo hoje para
os governantes (estaduais e federais) do que chamar de "crise hídrica" a
escassez que eles mesmos fabricaram.
No fim das contas, a
expressão "crise hídrica" - essa pérola da política que se especializou
em dar nomes que são o oposto das coisas que nomeiam - funciona como uma
anistia por antecipação. A falta d'água foi meticulosa e
persistentemente construída por um misto de desmando, oportunismo e
inconsequência governamental. Chamá-la agora de "crise hídrica", como
algo que caiu do céu, equivale a absolver sem julgamento os (maus)
gestores que a provocaram.
Se pudessem, esses mesmos gestores
mudariam o título do clássico de Graciliano Ramos Vidas Secas. Se
dependesse deles, o livro passaria a ser editado com o nome de Vidas
Hidricamente Críticas".
Como as nossas.
E você? Tem sede de quê?
fonte avarandablogspot
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