editorial da Folha de São Paulo
Se a Venezuela encontra-se hoje à beira do abismo, a culpa recai sobre seus dirigentes, que não souberam conduzi-la a outro lugar.
Ao assumir a Presidência, em 1999, Hugo Chávez herdou um país onde
metade da população vivia na pobreza. O preço do barril de petróleo,
matriz econômica nacional, ficava em torno de US$ 10.
Pode-se calcular o tamanho da mudança em termos de disponibilidade de
recursos quando o barril disparou nos anos 2000, chegando a valer US$
145 em 2008.
Possuindo a maior reserva de óleo bruto do mundo, Chávez bancou gastos
faraônicos, em especial na área social: saúde, moradia e educação
gratuitas, por exemplo. Mercados subsidiados brotaram pelo país. O
consumo explodiu.
Os resultados nesse campo apareceram. A pobreza caiu para 26% em 2012; o
PIB per capita saltou de US$ 4.105 em 1999 para US$ 11 mil em 2011; o
índice Gini, que mede a desigualdade, é o mais baixo da região. O
chavismo, porém, devastou o setor privado com expropriações e controles
de preços e câmbio.
Gastando mais do que podia, Chávez morreu em 2013, deixando um país
minado por dívidas, ineficiência e corrupção, sem que tivesse feito
reformas capazes de livrar a Venezuela da petrodependência.
Com o desgaste, seu herdeiro político, Nicolás Maduro, quase perdeu uma
eleição organizada às pressas para que o chavista se beneficiasse da
comoção nacional.
Maduro, porém, jamais deu conta da urgência de cortar gastos e
ressuscitar o setor produtivo. Sua situação, que já era ruim, piorou
sobremaneira após o barril de petróleo despencar de US$ 99 em junho para
cerca de US$ 50 atualmente.
A queda na arrecadação pressiona reservas minguantes e aumenta o risco
de calote da dívida venezuelana. Num país que compra fora quase tudo que
consome, a carência de divisas para importação gera escassez e filas
que infernizam o dia a dia. Após arrecadar US$ 1 trilhão em 16 anos, o
governo é incapaz de garantir leite e papel higiênico no comércio.
A crise gera agitação social. Milícias governistas ameaçam se rebelar.
Estudantes ensaiam retomar protestos que, há um ano, deixaram 43 mortos.
Numa demonstração de virulência e autoritarismo, Maduro permitiu o uso
de armas letais contra manifestantes violentos. A medida piora ainda
mais a imagem de um presidente com apenas 22% de apoio.
O governo enfrentará um páreo duro no pleito parlamentar do segundo
semestre, mas a maior dúvida é se Maduro conseguirá chegar ao fim de seu
mandato, em 2019.
fonte rota2014





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