editorial do Estadão
O governo federal ignorou mais de um terço das solicitações do Operador
Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a respeito das obras consideradas
prioritárias para evitar o risco de panes e apagões. É o que relata o
recente Plano de Ampliações e Reforços, balanço publicado anualmente
pelo ONS, no qual se listam as obras que devem entrar em operação nos
próximos três anos para garantir o abastecimento elétrico do País. Das
310 obras indicadas pelo ONS neste ano, 34% são empreendimentos já
solicitados em anos anteriores, mas que não foram licitados pelo governo
federal. O governo está literalmente pagando para ver. Só que o preço
dessa aposta - o aumento do risco de panes e apagões - não recai sobre
as suas costas, e sim sobre a sociedade e a economia nacional.
Atualmente, o País conta com 108.500 km de linhas de transmissão em
operação. Segundo o Plano de Ampliações e Reforços, nos próximos anos
serão necessários mais 45 mil km de linhas de transmissão. No entanto,
10,2 mil km ainda não têm previsão de concessão, isto é, são linhas que
ainda nem entraram no planejamento para serem leiloadas.
Em relação aos reforços para o Sistema Interligado Nacional (SIN), rede
que distribui energia pelo País, a diligência do governo federal segue o
mesmo padrão de eficiência. Dos 163 projetos elencados neste ano pelo
ONS, 61 já haviam entrado nos relatórios de anos anteriores e voltaram
agora a ser cobrados.
Também preocupam os números do Plano de Ampliações e Reforços relativos
às obras de linhas de transmissão que já estão em andamento. 54% dessas
obras apresentam atrasos em relação ao cronograma original e o atraso
médio verificado é de 13 meses.
Além do descaso com as orientações do ONS a respeito das melhorias na
transmissão de energia, especialistas do setor, ouvidos pelo Estado,
demonstram preocupação com a incapacidade do governo de atrair
empreendedores interessados em investir em projetos elétricos,
principalmente aqueles relacionados à transmissão de energia. E essa é
uma tarefa primordial, já que para fazer frente às necessidades de
ampliação e reforço de linhas de transmissão será necessário investir
nos próximos anos R$ 13,8 bilhões, segundo cálculos do ONS. Sem a
iniciativa privada, o governo terá muita dificuldade em bancar essa
conta.
Um exemplo da dificuldade em atrair investimentos foi o leilão realizado
no último dia 18, no qual foram ofertados nove lotes de linhas de
transmissão de energia, que somavam 4.723 km de linhas. Cinco lotes não
receberam nenhuma proposta, e cada um dos outros quatro recebeu apenas
uma única oferta, sendo apenas uma oferta feita por um investidor
privado. Resultado final: foram leiloados apenas 2.464 km do total.
Ao governo federal cabe boa parcela da culpa por essas dificuldades em
atrair investimentos para o setor elétrico. Além do habitual risco
inerente a esses projetos - basta lembrar as incertezas e atrasos
relacionados ao licenciamento ambiental -, o governo federal tem criado
novos obstáculos. Nos leilões, já se tornou corriqueiro o governo
estipular um preço-teto muito baixo, que desmotiva a maior parte dos
possíveis investidores. Por outro lado, a atuação da Eletrobrás
desequilibra os leilões. Ela é "um competidor estatal que joga contra o
próprio patrimônio", pondera Claudio Sales, do Acende Brasil. "No último
leilão, a empresa fez uma proposta com deságio de 14% sobre o valor
teto, em um leilão sem competição. O resultado desse comportamento está
no próprio balanço da estatal, que tem tido prejuízo recorrente", avalia
Sales.
As deficiências da infraestrutura nacional, e as correspondentes
necessidades de investimento, não são parte de uma retórica abstrata.
São bem conhecidas e, no caso da transmissão de energia, relembradas
anualmente pelo ONS. Já é hora de o governo federal deixar de fazer
ouvidos moucos às solicitações do ONS e trabalhar a sério no que lhe
corresponde. Só assim os investimentos virão. Só assim o País terá um
abastecimento de energia compatível com o seu almejado desenvolvimento
econômico e social.
FONTE ROTA2014





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