editorial de O Globo
É preciso considerar a abertura do mercado a concorrentes estrangeiros, antídoto eficaz à atuação coordenada ilegal de empresas nacionais
Não pode ser tratado como simples coincidência o fato de os dois
partidos que monopolizam a luta política em escala federal, PT e PSDB,
estarem envolvidos em escândalos com cartéis de empresas privadas.
No primeiro caso, PT e aliados são protagonistas do que se delineia o
maior golpe contra os cofres públicos já desfechado na História do país,
por meio de contratos com sobrepreços assinados entre a Petrobras e um
cartel de empreiteiras.
A parcela do superfaturamento, conforme testemunhos já prestados à
Justiça, serviu para distribuir propinas na estatal e, principalmente,
entre políticos do PT, do PP e do PMDB. Até dinheiro sujo teria sido
doado de forma legal ao PT.
Já tucanos de São Paulo se envolveram, desde 1998, quando já controlavam
o Palácio dos Bandeirantes, com um cartel de fornecedores de trens.
Como é praxe, houve combinação de preços entre concorrentes, sempre
superfaturados para financiar a corrupção, e determinação prévia de
vencedores de licitações fajutas.
A constatação óbvia é que a situação em que PSDB e PT se equiparam nos
métodos heterodoxos de gerenciar o dinheiro público — já ocorrida nos
respectivos mensalões — denuncia o baixo estágio ético da atual política
brasileira.
Outra questão a ser enfrentada é a cartelização na economia brasileira. O
tema é antigo, tem a idade do capitalismo, e há modelos de
enfrentamento do problema nos Estados Unidos e na Europa. No Brasil, há
um sistema de estímulo à concorrência, em que se destaca o Conselho
Administrativo de Defesa Econômica (Cade), da órbita do Ministério da
Justiça.
É
organismo da esfera administrativa, lento nas decisões, como a Justiça.
Terá de se debruçar sobre o cartel das empreiteiras, como fez no dos
trens. Mas não se deve ter expectativas otimistas.
O poder público recebeu o reforço da Lei Anticorrupção, promulgada este
ano, para punir com um mínimo de rigor a empresa corruptora, tenha ela
atuado de maneira cartelizada ou não. A nova legislação instituiu o
regime de delação premiada para pessoas jurídicas, chamado de
“leniência”, um instrumento bem-vindo.
Anotações apreendidas pela Polícia Federal em escritórios da Engevix,
uma das cartelizadas, indicam que o grupo confia na blindagem de serem
as maiores do país no ramo. Punidas com rigor, poderiam parar obras e,
portanto, “o país”. Trata-se da aplicação da ideia americana do “muito
grande para falir”, usada na crise financeira para proteger os
conglomerados financeiros de dimensões avantajadas.
Mas a própria experiência americana demonstra que executivos e mesmo
acionistas podem ser punidos como merecem, sem falir a empresa. No caso
das empreiteiras, as autoridades precisam considerar, também, a abertura
do mercado a concorrentes estrangeiros, antídoto eficaz à cartelização
de grupos nacionais. Instrumentos de mercado são tão importantes quanto a
atuação da Polícia, da Justiça e do MP para coibir abusos.
fonte rota2014





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