por Marcos Troyjo FOLHA DE SÃO PAULO
A Petrobras está no inferno. Nele, sugeria Dante, há nove círculos de sofrimento.
O oitavo, que pune a fraude, tem seu quinto fosso reservado aos
corruptos. Sua atuação, ao rapinarem nossa maior empresa, lesiona a
imagem do Brasil. Pior.
Dificulta a inserção externa do país e de suas empresas.
A aflição da Petrobras é exponencialmente aumentada com a abertura, nos
EUA, de ações voltadas ao ressarcimento de acionistas. A se desenrolaram
tanto na Justiça como na SEC, órgão regulador do mercado de capitais,
prometem novos círculos de padecimento à Petrobras e aos que nela
apostaram.
Há potenciais perdas infligidas de forma direta. A Justiça americana,
que delibera celeremente (num máximo previsto de dois anos) sobre temas
dessa natureza, pode decidir por reparações vultosas em razão das
falcatruas no período 2010-2014. Resta, ainda, eventual multa a ser
aplicada pela SEC, o que não apenas oneraria financeiramente a empresa,
mas também imprimiria mancha duradoura em sua imagem de governança.
Em ambas as vias, a Petrobras também ficará à mercê da infindável
criatividade dos escritórios de advocacia norte-americanos –e dos muitos
e longos desdobramentos que o caso pode encontrar nos EUA e noutros
países.
Para além do campo jurídico, os efeitos são dilapidadores. A capacidade
da Petrobras em levantar recursos no exterior para seu ambicioso plano
de investimentos está mutilada. Fundos se veem restringidos em alocar
recursos à empresa por seu alto endividamento, a iminência de
investigações e processos legais, ou ainda o risco de perda do grau de
investimento.
Esse quadro oferece campo fértil para maniqueísmos. Será grande a
tentação populista de manipular perversamente a opinião pública.
Seguindo-se a moratória argentina em 2001, Buenos Aires buscou repactuar
a dívida do país por fração do valor de face (à época de US$ 120
bilhões) e parcelamento. A maioria dos credores (93% deles) aderiu à
proposta.
Os restantes, apelidados de "abutres", valeram-se da praça jurídica dos
EUA para obter vitórias que não apenas garantem pleno recebimento dos
créditos, mas abrem portas para os que haviam aceitado a repactuação
também desfrutarem dos termos obtidos pelos abutres.
Mais do que disputa jurídica, a opinião pública argentina foi levada a
enxergar na crise dos abutres novo lance do "imperialismo" sobre a pobre
república sul-americana.
Caso as atribulações da Petrobras nos EUA se agudizem, em nada
surpreenderia a interpretação populista de que o contencioso configura
investida para "enfraquecer a Petrobras" de modo a que seja
"privatizada" para que "potências estrangeiras explorem nosso petróleo".
Para além da conjuntura internacional de preço menor para o barril de
petróleo, o valor de mercado da Petrobras declinou de US$ 380 bi em 2010
para US$ 140 bi hoje. O tombo é o dobro da dívida soberana argentina.
Os problemas da Petrobras não derivam da ganância internacional. Nós alimentamos nossos próprios abutres.
FONTE ROTA2014





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