Consta que envolvidos no caso temeriam mais o que poderá acontecer nos Estados Unidos, onde é zero a chance de negociar atenuação de penas. E têm razão
O continente não é uniforme também quanto à solidez das instituições
republicanas. Há Cuba e Venezuela, em que o Legislativo apenas carimba
decisões do Executivo, e também o Brasil, no qual, nos atuais 26 anos do
estado de direito democrático, um presidente sofreu impeachment, votado
no Congresso, e graduados do partido no poder, o PT, foram condenados à
prisão como mensaleiros, pelo Supremo Tribunal. Mas é tão longa e
atribulada a história política latino-americana, com ciclos de
fechamento e abertura políticos, que ainda é necessário lapidar uma
cultura não apenas de estrito respeito às leis, mas também de sua
execução.
Deve ser o tempo ainda relativamente curto de vivência numa democracia
plena, com suas devidas instituições, que leva poderosos a construir,
como se inimputáveis fossem, esquemas criminosos de desvio de dinheiro
público. O mensalão já foi surpreendente pela ousadia. Já o petrolão,
também saído das pranchetas do lulopetismo, ultrapassa todas as medidas.
No assalto à Petrobras, porém, a ousadia foi tanta que caiu no campo da
imprevidência. Uma coisa é desviar dinheiro de uma subsidiária de
marketing do Banco do Brasil, como no mensalão, outra, perpetrar o saque
por meio de superfaturamento de investimentos bilionários da Petrobras,
estatal globalizada, com milhares de ações em mãos privadas inclusive
nos Estados Unidos. O BB também conta com recibos de ações (ADRs) em
Wall Street, mas o caso Petrobras é superlativo.
O erro, talvez capital, dos salteadores da Petrobras foi, ao operar o
aparelhamento da diretoria da empresa com funcionários de carreira
apadrinhados pelo PT, PP e PMDB, para drenar dinheiro público, se
tornarem alvo do aparato institucional americano de defesa da lisura das
operações no mercado financeiro.
Dirigentes atuais da estatal, aqueles que se envolveram nas falcatruas e
saíram da empresa, bem como o Executivo federal, passam a enfrentar
ações imunes a pressões políticas e diplomáticas. Aqui, o Tribunal de
Contas da União deliberou a favor da presidente Dilma, na história
mirabolante da compra da refinaria de Pasadena, mesmo que ela, à época,
estivesse à frente do Conselho de Administração da Petrobras. É quase
certo que o mesmo não aconteceria nos Estados Unidos. Inclusive com ela
na Casa Branca.
Além das providências tomadas pelo Departamento de Justiça e pela SEC
(CVM americana) para averiguar o escândalo, o escritório de advocacia
Wolf Popper, com experiência no ramo, abriu ação coletiva em nome de
quem comprou ADRs da estatal entre 2010 e 2014, para que reclamem seus
direitos. Quer dizer, ressarcimento pelo patrimônio desviado para os
desvãos da política e bolsos privados. São comuns, no mercado americano,
multas bilionárias na punição por operações fraudulentas.
Consta que envolvidos no petrolão temeriam mais o que pode acontecer com eles nos Estados Unidos. Não deixam de ter razão.
FONTE ROTA2014





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