por Vinicius Torres Freire Folha de São Paulo
No fim da campanha eleitoral de 2014, o mundo era outro. Foi então que o
governo percebeu a gravidade da crise, segundo Aloizio Mercadante
contou à Folha, neste domingo.
Antes disso, as notícias de crise e degradação econômicas eram "guerra
psicológica", como disse a presidente Dilma Rousseff em sua mensagem de
fim de ano de 2013.
"Estávamos numa intensa campanha presidencial, debatendo, viajando,
fazendo e, quando você chegou no fim da campanha, o mundo era outro",
disse o ministro da Casa Civil. A queda rápida do preço das commodities
"impactou muito as finanças públicas".
Foi o que disse Dilma Rousseff em entrevista que concedeu faz duas semanas. "Nós levamos muito susto. Nós não imaginávamos.
Primeiro, que teria uma queda de arrecadação tão profunda. Ninguém
imaginava." Para a presidente, a crise ficou evidente em novembro.
Como em tantas lendas e neuroses, essa história tem relação com parte da
realidade. Mas o governo começou a estourar as suas contas, entre
tantos estouros, em 2012.
A receita de impostos do governo não crescia no primeiro semestre de
2014, em relação ao ano anterior. Ocorrera coisa parecida no primeiro
semestre de 2013.
O governo talvez tenha chutado que "vai dar tudo certo outra vez". Não
deu. Em novembro, quando a presidente voltavam da viagem da campanha
eleitoral, a receita acumulada no ano cairia mais de 3% ante 2013.
A receita não crescia até maio, mas os gastos cresciam já 4,8%, em
termos reais, descontada a inflação; daí em diante, o governo pisaria no
acelerador. Ao fim do ano passado, os gastos cresceriam 6,1%; a receita
diminuiria 3,7%.
O superavit primário caía de modo suspeito desde meados de 2012
(primário: receita menos despesa, afora gastos com juros). A partir de
2013, desceu ladeira abaixo, muito aquém do mínimo necessário para
estabilizar o crescimento da dívida pública (então 2%, ao menos): baixou
de 2% do PIB em janeiro de 2013 para 1% em meados de 2014.
Isso nada tem a ver com preço de commodities, seca e Lava Jato, os bodes
do apocalipse conjurados pelo governo para explicar a ruína.
Também óbvio, a economia em marchinha forçada de Dilma 1 dava faz tempo sinais de iria explodir, como uma caldeira bufando.
Note-se de passagem que o governo de moto próprio criara várias despesas novas, muitas delas permanentes.
A economia estava inflacionada (IPCA em torno de 6% por anos, maquiado
por tabelamento de preços de energia e desonerações de impostos).
Isto é, viria alta de juros (mais déficit do governo). Matavam-se mais
vacas leiteiras de impostos da indústria, que competia com preços de um
mundo em deflação. O deficit externo cresceria de 2% do PIB para mais de
4% do PIB nos anos Dilma 1, o que por sua vez alimentaria a depreciação
do real, mais lenha para a inflação e juros.
Por fim, a própria redução do superávit primário em ambiente já de baixo
crescimento induziria o aumento da dívida pública, outra pressão sobre
as taxas de juros.
Essa controvérsia parece apenas ter interesse histórico, acadêmico, talvez político e judicial ("pedaladas"). Só que não.
Não faz dez dias, o governo estava tentado a voltar ao mundo da fantasia da sua lenda fiscal.
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