por Caio Blinder Com Blog do Caio Blinder - Veja
Obra da Odebrecht no Peru: luz no fim do túnel?
Corrupção é uma discussão que não tem nada de abstrata. Estão aí os
pilares de investigacões, escândalos e provas no Brasil e no resto do
mundo. O jornal Financial Times acaba de publicar um sólido e primoroso editorial mostrando algumas conexões.
O primor começa na primeira frase do texto: “Onde há concreto, há
corrupção”. A frase tem fundações, afinal construção é uma indústria
altamente suspeita no pagamento de suborno, conforme os estudos da
organização Transparência Internacional. Trata-se de um negócio global
na casa de US$ 8 trilhões e que deve crescer para US$ 15 trilhões em
2020. Que potencial para trambiques. Será que não existe teto para a
corrupção?
O consolo é que a devassa de corrupção em tantas partes do mundo tem derrubado políticos e causado a implosão de governos. E o Financial Times salienta
que a conexão concreto-corrupção é especialmente flagrante em países
emergentes, onde a indústria de construção é mais frenética para
trabalhar e corromper.
Na China, uma cruzada anticorrupção tem lugar depois de um boom de
investimentos em infra-estrutura; na Rússia, na sequência de uma alta
espetacular do consumo de cimento; no México, a mulher do presidente
está metida em um escândalo de conflito de interesses envolvendo uma
empreiteira que construiu a mansão do primeiro casal. E obviamente,
temos o Brasil da Operacão Lava-Jato, com as delações premiadas e
prisões do pessoal do CCC, Comando das Construtoras Corruptas.
Esta aí o exemplo imediato e explosivo da Guatemala. Sob pressão da
sociedade civil e de um trabalho infatigável de procuradores, Otto Pérez
Molina finalmente renunciou à presidência e será submetido a
julgamento. A Guatemala quem sabe se mostre uma república de banana mais
madura do que tantos outros países.
Na superfície, é um escândalo de suborno pago por importadores para se
safarem de tarifas alfangedárias (o esquema era sistêmico). Indo mais
fundo, a indústria de corrupção dá sustentação para a corrupção
guatemalteca. Conforme um relatório da Comissão Internacional contra a
Impunidade na Guatemala (CICIG, amparada pela ONU), metade do dinheiro
de financiamento de campanha eleitoral no país procede de empreiteiras à
caça de contratos de infra-estrutura.
A Guatemala precisou deste amparo internacional para combater a
corrupção. Já o Brasil, como observa o Financial Times, tem pilares
sólidos nas suas instituições judiciais e policiais para respaldar este
combate à corrupção.
O cenário brasileiro hoje é de um edifício balança-mas-não-cai. No entanto, na esperança do Financial Times e
dos setores decentes da sociedade brasileira, as investigações de
corrupção a longo prazo deverão fortalecer o edifício da lei e atrair
investimentos. Que as esperanças se concretizem.
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