por Fernando Gabeira O Globo
Reação ao boneco inflável Pixuleco mostra que o PT perdeu senso de humor
Um boneco inflado chamado Pixuleco tornou-se um ator da política
nacional. Ele representa Lula com uniforme de presidiário. A prefeitura
petista de São Paulo pensa em proibi-lo por ser “uma poluição visual”.
Nem todos pensam assim. Como muitos símbolos vitoriosos, o Pixuleco
ganhou contornos múltiplos, desempenha outros papéis além dos projetados
por seus criadores. Nas redes sociais, o Pixuleco tornou-se um
brinquedo fofo. Aparece ao lado das princesas da Disney e no jogo Onde
Está Wally.
O Pixuleco, como tantos outros símbolos fortes, sofreu um atentado. Foi
algo bem suave, comparado com a ação dos radicais muçulmanos. Uma jovem o
furou com um estilete, em São Paulo. O boneco foi para a mesa de
operações, de onde já saiu para reaparecer no dia 7 de setembro.
Nos atentados para valer nem sempre se atacam os símbolos, mas seus
criadores. Os assassinatos no “Charlie Hebdo” foram o episódio mais
trágico dessa tradição. Felizmente, no Brasil, a jovem atacou a
caricatura, e seu Maomelula desinflou na calçada.
É divertido as pessoas brigarem com um boneco inflado, tentando
proibi-lo, ou mesmo apunhalar seu ventre macio. E ver o PT atacar o
Pixuleco.
Entre as muitas perdas do PT ao longo de sua trajetória está a do senso
de humor. Parece que isso é meio inevitável: ao virar governo, a pessoa
sempre leva muito a sério as bobagens que nos reservam diariamente. O
Pixuleco vai flutuar nos ares de um país oficialmente quebrado. O
desgoverno de Dilma é o seu combustível.
Ela anuncia que vamos ter um rombo de R$ 30 bilhões em 2016. E os amigos
do governo dizem: “vocês deviam reconhecer que, dessa vez, estamos
falando a verdade”. Como se reconhecer a própria incompetência a
absolvesse dos problemas que criou na vida real. O pior é que fala
mentira mesmo quando afirma ter aderido à verdade. O rombo não será
apenas de R$ 30 bilhões. Seu projeto orçamentário prevê crescimento em
2016 contra todas as previsões. Só esse detalhe significa alguns bilhões
a mais no rombo de R$ 30 bilhões que ela já admite.
Na semana passada, Rodrigo Janot tirou a máscara: resolveu blindar
Dilma. Recusou investigar suas contas de campanha. Disse que o pedido
era choro de perdedores. E que a sociedade não se interessa mais por
esse tema eleitoral. Simultaneamente, ironizou a oposição e disse que
deu lições ao TSE sobre como conduzir o exame das contas.
Janot é um homem de coragem. Jogou a reputação num só lance, comprometeu
sua imparcialidade blindando um governo moribundo. Será mais um rubro
boneco inflado, com o número 13 no peito.
A tática de deixar Dilma sangrar até 2018 tem prevalecido até agora. Se
durar até o Natal, como dizer “Feliz ano novo”? Acordaremos em 2016
saudando a mandioca, com um rombo bilionário no orçamento. Nem todos
percebem a ação corrosiva da crise na nossa vida cotidiana. Muita gente
perdendo o emprego. Das janelas do Planalto, voam passaralhos em todas
as direções. Claro que alguns se adaptam, inventam seus trabalhos. Vi um
filme sobre a crise americana, e nele as pessoas ganhavam a vida em
maratonas dançantes. Viravam a noite dançando.
Dilma ainda pensou em lançar um novo imposto, a velha CPMF. Desistiu em
48 horas porque anteviu uma derrota por 7 a 1. Mas ela tentará de novo.
Num esforço desesperado para sobreviver no cargo, vive o dilema de um
Hamlet de shopping center: gastar ou não gastar. Como todos os dilemas
não resolvidos, será transformado em não gastar, gastando. Se admitiu um
rombo de R$ 30 bilhões, sabendo que será muito maior, o que lhe resta
senão encenar o teatro da austeridade?
Dilma quer o apoio do Congresso para cortar despesas. Antes, liberou R$
500 milhões de verbas parlamentares. “O de vocês está garantido, agora
vamos cortar o dos outros”. Toda essa farsa vai acabar desmoronando. Os
que querem apenas sangrar Dilma comemoram: ela continua. Sem nenhum
horizonte. O próprio Michel Temer reconheceu que o governo não tem
estratégia.
A cada dia alguém tem razões para celebrar ou lamentar a presença de
Dilma. Mas a continuidade a partir de um grande acordo que envolva
procuradores, juízes do STF, políticos, empresários e banqueiros é um
caminho perigoso. Sérgio Moro levantou a questão da dignidade nacional,
um pouco perdida com os escândalos de corrupção. Um país em crise tem
tudo para se rebelar com um destino medíocre que se desenha para ele.
Uma jovem prefeita do Maranhão foi estrela na imprensa internacional.
Ela está foragida depois de desvios de verba da merenda escolar. Era
ativa nas redes sociais e aparece numa foto diante do espelho, muito
maquiada, com o rosto esculpido pela cirurgia plástica, lábios pintados
de um intenso vermelho. Foi a cara do Brasil esta semana. Um Brasil de
pequenos e grandes cafajestes, um Brasil apodrecido, prestes a ser
mandado para os ares, inclusive na forma de centenas de bonecos
inflados.
extraídaderota2014blogspot





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