por Dora Kramer
O ex-presidente Luiz Inácio da Silva falou ao PT, no 5.º Congresso, como
se os fatos e os atos pudessem ser apagados por gestos de vontade ou
por simples obra da conveniência.
Na sexta-feira, em Salvador, Lula citou a campanha eleitoral de 1989
para lembrar aquele tempo em que “a gente vendia camiseta e adesivo de
carro”. O intuito da recordação era o de incentivar os militantes a
passear no passado, quando o PT, segundo ele, era vivido “com mais
intensidade que hoje”.
O convite de retorno às origens inclui a ideia de levar os petistas a
batalharem por doações individuais de dinheiro, a fim de “resolver parte
dos problemas” do partido e – pelo que se depreende das intenções
contidas na Carta de Salvador, principal documento do congresso –
providenciar uma inflexão à esquerda.
O que seria isso? Uma readaptação da política de alianças, deixando
agora de lado partidos do centro à direita com os quais o PT se aliou
para governar. Muito bem. Mas não foi a direção do Partido dos
Trabalhadores que em 2002 resolveu adernar ao centro-direita justamente
com a meta de parar de perder eleições?
Mais: uma vez no poder, aliou-se ao que de mais conservador existia sob
argumento de que não havia outra maneira de governar. Nada contra, uma
escolha ditada pelas circunstâncias. É de se conferir, no entanto, o que
acha disso a militância que na época não foi consultada a respeito.
Outro problema: se o PT optou por um caminho para ganhar, como espera
vencer voltando à trilha que o levou à derrota por três eleições?
Pode-se argumentar que os tempos são outros. Perfeito. Mas a mudança foi
para todos. Lula também mudou. E a percepção que se tem dele também.
Hoje já não conta com a aura do mito intocável. É um político
investigado por suspeita de praticar tráfico de influência em favor da
construtora Norberto Odebrecht.
Contra ele existem outras questões, a respeito das quais deve
explicações não esclarecidas. Por exemplo, as doações daquela
empreiteira ao Instituto Lula (a título de quê?) e uma reunião com Paulo
Roberto Costa – corrupto confesso – em 2006 no Palácio do Planalto para
falar sobre Petrobrás. Assim constava na agenda oficial.
Com esse passivo – ao qual se pode acrescentar o apartamento triplex do
Guarujá construído com dinheiro da cooperativa dos bancários, as viagens
mundo afora financiadas por empreiteiras, hospedagens em hotéis de luxo
pagas sabe-se lá por quem – fica bastante mais complicada a manutenção
da simbologia do operário com identificação plena na camada do Brasil
proletário.
Essas e outras perguntas até então não haviam sido feitas a Lula em
campanhas presidenciais. Mas, em 2018, certamente serão postas e
precisarão ser respondidas por ele se porventura vier a se candidatar.
Nessa hipótese, será uma reconciliação de construção difícil. Lula era o
operário que havia sido aceito no paraíso. Uma vez lá, abusou, foi
malvisto e por isso ensaia uma volta aos seus.
Estes, por sua vez, agora têm o direito de desconfiar dessa nova carta de intenções.
Provocações. Começa
a se conversar na Câmara sobre a possibilidade de se apresentar uma
proposta de referendo, plebiscito ou recall, no meio do mandato
presidencial. Nada de sério, só mais uma invenção da reforma política.
Suas excelências, quando nada mais têm a fazer de útil, sacam de dentro
da manga das camisas uma ideia inútil. Essa agora é uma delas. Pelo
comezinho fato de que essa história não tem outro objetivo que não o de
criar uma chateação para a presidente Dilma Rousseff. Isso dito de forma
explícita por um líder do governo no Congresso.
O líder, integrante do PMDB, ainda faz a provocação lembrando que esse
tipo de instrumento existe na Venezuela e que, por isso, é possível que
agrade ao PT.
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