editorial do Estadão
Entrevista recente de José Sérgio Gabrielli ao jornal Valor revela a extensão da impostura petista quando se trata de explicar o maior escândalo de corrupção da história do Brasil. A versão apresentada pelo ex-presidente da Petrobrás para comentar a hemorragia de dinheiro público dos cofres da estatal é tão cândida quanto estupefaciente. Para Gabrielli, a corrupção na Petrobrás não tem a dimensão que se lhe atribui - logo, o escândalo serve somente àqueles que têm interesse em enfraquecer a Petrobrás.
Se há alguém que sabe, ou deveria saber, exatamente o que aconteceu na
última década nos porões da Petrobrás, que já foi um orgulho nacional e
que hoje frequenta as páginas policiais e os relatórios depreciativos
das agências de classificação de risco, esse alguém é Gabrielli. Petista
histórico, ele chegou à estatal no mesmo ano em que o PT assumiu o
poder, em 2003, instante em que se deflagrou o formidável aparelhamento
da máquina pública que, agora se sabe, ensejou imperdível oportunidade
para a rapinagem em escala nunca vista.
Sem experiência no setor de petróleo, Gabrielli ganhou de seus padrinhos
políticos, logo de cara, a função de diretor financeiro. Dois anos
depois, já era presidente da estatal, cargo do qual saiu somente em
2012. Portanto, Gabrielli tem todo o interesse em fazer pouco do
escândalo, ainda mais porque a Justiça começa a rondá-lo perigosamente -
ele acaba de ter o sigilo fiscal e bancário quebrado em um caso de
superfaturamento de uma obra da Petrobrás no Rio. O problema é que sua
versão é um insulto à inteligência alheia - e prova que a especialidade
do cacicado petista é a transformação da história em empulhação.
"Isso não está provado", disse Gabrielli, por exemplo, ao comentar na
entrevista a acusação de que empreiteiras pagaram comissão de 3% a
diretores da Petrobrás ligados ao PT, ao PP e ao PMDB. Para ele, a
alegada dimensão da propina - que pode chegar a R$ 4 bilhões - é
suficiente para classificar a denúncia como inconsistente.
Gabrielli considera que tudo não passou de uma simples "relação entre um
doleiro e um fornecedor", algo que não foi detectado pelos rigorosos
"procedimentos internos" da Petrobrás. Já o grande pivô do escândalo, o
ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa, atuou "fora da
Petrobrás", razão pela qual, disse Gabrielli, "não tem como descobrir". E
o petista ainda se mostrou indignado - chamou Costa de "dissimulado,
uma pessoa extremamente fria", porque "fazia isso e ninguém sabia".
Quando confrontado com o fato de que um mero gerente, Pedro Barusco,
admitiu ter recebido cerca de US$ 100 milhões em propinas, Gabrielli
teve o desplante de dizer que se trata de um valor "pequeno" perto do
volume de transações da Petrobrás.
Em seguida, disse que Barusco e Costa eram apenas dois corruptos "em uma
empresa que tem 3 mil gerentes de primeira linha". É claro que não se
pode atribuir o comportamento imoral da quadrilha que se instalou na
Petrobrás a todo o quadro de gerentes, mas o que Gabrielli está tentando
fazer é minimizar os valores envolvidos e vincular todo o escândalo a
um punhado de indivíduos que teriam agido por conta própria - isentando
tanto os funcionários quanto, principalmente, a direção da empresa.
Gabrielli sugere, portanto, que a dimensão do caso é exagerada e que é
graças a isso que a capacidade de investimento da Petrobrás está agora
seriamente ameaçada, inclusive na exploração do pré-sal - que, na
narrativa petista, é cobiçado por petroleiras estrangeiras. Na
fantástica versão de Gabrielli, a depauperação da Petrobrás não resultou
da política suicida de preços nem dos gastos bilionários em refinarias
que não saíram do papel ou que não valiam o investimento, como a de
Pasadena. Tudo parece se resumir a uma conspiração da oposição para
"dizer que a Petrobrás é uma empresa corrupta".
O esforço retórico de Gabrielli mostra que a Petrobrás que ele e seus
companheiros se esforçam em defender não é a empresa que está a serviço
do País, mas sim aquela que durante anos serviu aos interesses do PT e
de seus associados.
fonte rota2014





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