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22:20
ANDRADEJRJOR
ALEXANDRE SCHWARTSMAN

Sem um ajuste, novos impostos só alimentarão o apetite de um governo cujas unhas não param de crescer
No
final de 2005, a equipe econômica debateu a conveniência de um programa
de ajuste fiscal de longo prazo. A ideia, nada revolucionária e para lá
de sensata, propunha limitar o crescimento das despesas correntes do
governo federal a um valor abaixo do aumento do PIB. Dessa forma o gasto
corrente, medido como proporção do produto, cairia um pouco a cada ano.
Caberia,
é claro, ajustar a velocidade do processo para determinar seu efeito
anual médio, mas uma redução de, digamos, 0,2% do PIB por ano não
parecia particularmente exagerada. Caso a proposta tivesse vingado
então, quando o gasto corrente andava pela casa de 15,5% do PIB, hoje
teríamos, numa primeira aproximação, reduzido essas despesas para pouco
menos de 14% do PIB. E, diga-se, mesmo nesse cenário o crescimento das
despesas correntes teria superado a inflação, permitindo até a expansão
dos serviços públicos.
Ao invés disso, elevamos as despesas
federais correntes para 18,5% do PIB, enquanto as despesas totais
bateram todos os recordes, situando-se em 20% do PIB, superiores a R$ 1
trilhão. A diferença entre nossa situação atual e a que poderíamos ter
atingido equivale a pouco menos de 5% do PIB. Expresso em números mais
próximos à nossa experiência, o governo federal poderia ter gasto cerca
de R$ 250 bilhões a menos do que gastou no ano passado, caso aquela
proposta tivesse sido adotada.
No entanto, não foi. E, como se
sabe, a oposição a ela foi capitaneada pela então ministra da Casa
Civil, que não apenas a classificou de "rudimentar" mas afirmou para
quem quisesse ouvir: "Despesa corrente é vida. Ou você proíbe o povo de
nascer, de morrer, de comer ou de adoecer ou vai ter despesa corrente".
O
descalabro das despesas públicas no governo Dilma, quando o gasto
federal saltou 2,7% do PIB (0,7% do PIB por ano), não se deve, pois, ao
acaso. Para fins de comparação, no governo Lula, em oito anos, o
dispêndio cresceu 1,7% do PIB (0,2% do PIB por ano), enquanto no governo
FHC, de 1997 (quando a série começa) a 2002, a despesa havia se
expandido em 1,5% do PIB (0,3% do PIB por ano).
A conclusão
inescapável é que jamais houve governo tão "gastão", mesmo depois de a
presidente ter vindo a público ainda no começo do seu primeiro mandato
comparando o controle do gasto corrente a "cortar as unhas, pois, se
você não olhar para alguns gastos, eles explodem, (...) tem que cortar
as unhas sempre". Aliás, na mesma entrevista, a presidente garantiu
"guerra à inflação", uma boa medida para aferir a veracidade de seus
compromissos com a estabilidade econômica.
O resultado dessa
aventura fiscal, que, reitero, reflete fielmente o pensamento (se assim
pudermos chamá-lo) da presidente, traduz-se exemplarmente no desempenho
do ano passado. O governo registrou o primeiro deficit primário desde
1997, e o deficit total, com auxílio luxuoso das perdas do BC no mercado
de câmbio, atingiu 6,7% do PIB, também o mais elevado desde 1997.
A
dívida pública, pouco superior a 53% do PIB no começo de sua
administração, pulou para mais de 63% do PIB em dezembro de 2014 (69% do
PIB, caso adotemos critérios internacionais), deixando claros os
limites de seu keynesianismo rudimentar.
Diante do desastre na
gestão das finanças públicas, mais uma vez recorremos ao aumento de
impostos para fechar as contas, embora haja dúvidas razoáveis acerca da
possibilidade de atingirmos mesmo a modesta meta de saldo primário de
1,2% do PIB (R$ 66 bilhões) neste ano.
Reconheço que se trata de
mal inevitável dada a situação delicada em que nos encontramos. Isto
dito, mais que nunca, cabe exigir que a contrapartida de impostos mais
altos seja -dez anos depois de torpedeada pela presidente- a adoção de
um programa de ajuste de longo prazo nos moldes acima discutidos. Sem
isso, novos impostos, como no passado, apenas alimentarão o apetite de
um governo cujas unhas não param de crescer.
FONTE AVARANDABLOGSPOT
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