Por Catarina Rochamonte*, publicado no Instituto Liberal
É preciso empreender uma batalha
constante contra todos os tipos de tirania. O que significa isso?
Significa qualquer postura que tente intermediar a relação do homem com a
sua própria psiquê, com o seu íntimo e com a sua fé. O homem que,
covardemente, outorga autoridade suprema a qualquer instância
orientadora está desertando de um caminho certamente longo, porém mais
lúcido que é o caminho da responsabilidade individual diante da
valoração de uma causa qualquer.
Ora, atentemos um instante para a
promessa aleatória de execução de uma sociedade ideal e perfeita. Quem
promete algo parecido com isso está apenas convergindo lutas pessoais e
letras imemoriais em um projeto plenamente realizável. O que queremos
dizer com isso é que a consecução de uma obra de natureza duradoura
depende de séculos de trabalho de uma infinidade de segmentos sociais e
de uma renovação de ideias tão profunda que é impossível limitá-la a um
dado projeto. A caminhada em direção a algo nobre é efetivamente mais
sólida que a suposta conquista que mais tarde com certeza sucumbirá ante
a fragilidade de seus fundamentos.
O socialismo foi essa trajetória curva na
História contemporânea que atrasou o desenvolvimento técnico e o
desenvolvimento material, sem falar na outra face mais obscura, qual
seja, a soma dos horrores cometidos em nome de um suposto bem. A
justificação moral do mal em nome do bem é mais prejudicial ao homem que
a execução do mal sem justificativa alguma. Comunismo e nazismo se
assemelharam, portanto, quanto aos limites impostos à liberdade,
distinguindo-se apenas pela natureza de suas justificações.
Ora, o nazismo se concretizou como forma
eficaz de totalitarismo disseminando algo que qualquer pessoa
minimamente bem-intencionada sabe tratar-se de uma coisa insustentável, a
saber, a ideia de uma raça superior, possuidora de característica
distintas que a fariam triunfar. O absurdo da proposta faz com que,
passada a catarse tétrica momentânea, os indivíduos ponderem e sigam
novamente a rota saudável das relações sociais. Por que então o nazismo
ainda encontra defensores? Porque ainda existem indivíduos objetivamente
maus que perseguem ideias que lhes correspondam à índole.
Com o comunismo dá-se algo parecido no
que compete ao fascínio ideológico e ao embrutecimento intelectual, não
obstante o problema se agrave justamente pela manipulação das saudáveis
inclinações e dos mais honestos fins que são efetivamente alvos não das
pessoas de má índole, mas das pessoas sãs. O comunismo promete a
extinção da desigualdade social e estabelece métodos para alcançá-la.
Vejamos, primeiramente o indivíduo parte
para uma batalha natural entre a sua própria consciência e a consciência
partidária que o obriga a uma suposta moral que de moral efetivamente
não tem nada. Depois, a capacidade de persuasão da ideia faz com que o
indivíduo se perca em sua própria moralidade, subordinada, doravante, ao
fim último a ser perseguido. Nesse intervalo entre o indivíduo
desobrigado de prestar contas à própria consciência e o indivíduo
devotado a uma causa maior insere-se um sem número de projetos vãos que
derrotam a moral dita burguesa fazendo do indivíduo nada mais que um
cego lutador, capaz de atos bandidos desprovidos de compaixão, mas
justificados pela honradez perante uma causa que o ultrapassa. Eis o fim
da sobriedade, da lucidez, da honestidade de conduta e da moral firme
de um indivíduo livre.
* Catarina
Rochamonte é graduada em Filosofia pela UECE (Universidade Estadual do
Ceará), mestre em Filosofia pela UFRN (Universidade Federal do Rio
Grande do Norte), doutoranda em Filosofia pela UFSCar (Universidade
Federal de São Carlos); é escritora e jornalista independente.





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