editorial da Folha de São Paulo
Na semana passada o país finalmente conheceu na plenitude os resultados da irresponsabilidade que marcou a gestão das contas públicas durante boa parte do governo Dilma Rousseff (PT). O Brasil terminou 2014 com o maior deficit de que se tem registro.
Foi um rombo de R$ 344 bilhões, o equivalente a 6,7% do PIB. Uma parcela
dessa cifra (R$ 32,5 bilhões) decorre do saldo primário negativo –ou
seja, o setor público gastou mais do que arrecadou, mesmo antes do
pagamento de juros da dívida. A maior fatia, cerca de 6,1% do PIB,
explica-se justamente pelos juros –uma enormidade.
Não surpreende, assim, que o governo tenha feito o máximo esforço para
aprovar no Congresso o abandono da meta de poupança. Sem a manobra, os
gestores públicos responsáveis pelo descalabro estariam ameaçados pelas
sanções administrativas e até penais estipuladas em lei.
Disso eles escaparam, mas dificultaram a tarefa de Joaquim Levy, titular
da pasta da Fazenda. O buraco aberto em 2014 mostrou-se mais fundo do
que previsto por analistas e, certamente, pelo próprio ministro
recém-chegado.
Em outras palavras, o aperto necessário para atingir o superavit
primário de 1,2% do PIB prometido para 2015 terá de ser maior: passou de
cerca de R$ 65 bilhões para R$ 100 bilhões.
As medidas já anunciadas por Levy (como cortes de gastos, mudanças no
seguro-desemprego, abono salarial e pensão por morte, aumento de
tributos) trarão cerca da metade do valor necessário.
Torna-se quase impossível cumprir a meta sem novos cortes draconianos ou
mais aumento de tributos. Quais? Da reversão de desonerações, inclusive
na folha de pagamentos, ao Imposto de Renda, nada está fora de
cogitação.
Um quadro desalentador; superá-lo exigirá persistência e competência da
nova equipe econômica, bem como apoio de um Legislativo que não dá
sinais de querer trégua com o Executivo.
A equação ainda se complica quando se leva em conta a paciência do
contribuinte, já consumida pela recessão, pela alta na conta de luz, no
preço dos transportes urbanos e no IPTU –sem mencionar o risco de faltar
energia e água.
A presidente Dilma Rousseff, de forma tardia e apenas por questão de
sobrevivência política, ao menos reconheceu a necessidade de mudar os
rumos na economia.
Mas os ajustes seriam mais fáceis se Dilma se portasse como estadista,
reconhecendo erros e falando com franqueza ao país sobre os desafios que
estão à frente. Enquanto insistir em dourar a pílula, não contará com a
boa vontade dos brasileiros.
fonte rota2014





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