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08:14
ANDRADEJRJOR
CARLOS ALBERTO SARDENBERG O GLOBO

Dinheiro da corrupção pode ser localizado e, em parte, devolvido. Já as perdas, digamos, técnicas vão ficar por conta do povo
Quem
começou o roubo na Petrobras, os políticos ou as empreiteiras? Para
quem não tem nada a ver com isso, não faz diferença. Mas para quem está
no rolo, pode fazer a diferença entre uma pena maior ou menos severa.
Quem sabe até uma absolvição? — a esperança é livre aqui.
A
versão dos políticos — no caso, do PT, PMDB e PP, principalmente, e de
gente do governo Dilma — joga a culpa principal no cartel das
empreiteiras, que existiria desde muita antes de os petistas chegarem ao
poder. Fazendo combinações entre si, distribuindo as obras em reuniões
secretas, acertando os preços, as empreiteiras dominavam de tal modo o
negócio das grandes obras no Brasil que não havia saída senão, digamos,
render-se a elas. Era isso ou não tocar os empreendimentos.
Sendo
assim os fatos, com as empreiteiras se refestelando com os preços
superfaturados, por que não tirar algum troco para a nobre tarefa de
financiar atividades políticas? E atividades de partidos que visavam à
nobre causa do povo — até muito justo, não é mesmo? Se isso for crime,
dizem os autores dessa teoria, pelo menos é menor do que a montagem da
quadrilha, quer dizer, do esquema.
A versão das empreiteiras é o
inverso. Políticos dos partidos dos governos Lula e Dilma teriam montado
uma máquina de fazer dinheiro para financiar eleições, de modo que não
pagar propina e não entrar no esquema significava perder todas as obras.
E
se as regras do jogo eram essas, se o preço seria mesmo elevado para
pagar a caixinha política, por que não superfaturar um pouquinho mais
para atender aos nobres interesses dos acionistas? Este seria um crime
menor do que a montagem original da quadrilha etc.
No meio desses
dois poderosos lados, sempre sobrava algum para executivos das
empreiteiras e da estatal. Na verdade, alguns milhões.
Digamos
que haja aí boa matéria para os advogados dos dois lados, mas, para a
gente — cidadãos, contribuintes, eleitores, acionistas privados da
Petrobras — não tem sentido algum. O gestor da coisa pública — para
ficar bem solene — tinha que simplesmente chamar a Polícia Federal tão
logo soubesse do esquema. Sem contar que, para o pessoal do PT, haveria
aí um ótimo tema para atacar os seus antecessores no governo federal,
aqueles neoliberais.
A mesma coisa vale para os donos das
empreiteiras. Sabendo da quadrilha, que chamassem a polícia. Por que uma
empresa eficiente, dona de tecnologia de primeira, precisaria se
sujeitar a esse tipo de esquema que favorece a picaretagem?
Tudo
considerado, não importa saber qual versão é mais correta. Mesmo porque,
o mais lógico é concluir que ambas estão certas, assim mesmo, uma
contra a outra. Os dois lados montaram seus esquemas, uma sociedade que
está caindo para todas as partes. Como me dizia um advogado de ampla
experiência: quando um réu acusa o outro, vão os dois para a cadeia.
Parece
que o processo vai nessa direção, apanhando de passagem alguns
executivos, pelo menos no tribunal do juiz Sérgio Moro. Agora em
fevereiro, vamos ver como a ação penal anda no Supremo Tribunal Federal.
Essa
é a história da corrupção, para os tribunais. Há uma outra, que é a
desastrosa gestão imposta à Petrobras desde o governo Lula. Difícil
saber qual causou mais prejuízo à empresa e ao país. Tão difícil que
Graça Foster, com todo seu empenho e dedicação, não havia conseguido
fazer a contabilidade que separasse a grana da corrupção do dinheiro
torrado por erros de gerência e administração.
Por exemplo: a
refinaria Abreu e Lima (a de Pernambuco) talvez nem devesse ter sido
feita; se feita, poderia ter saído mais barata do que o preço já
descontado da roubalheira. O dinheiro da corrupção pode até ser
localizado e, em parte ao menos, devolvido. Já as perdas, digamos,
técnicas vão mesmo ficar por conta do povo, o verdadeiro acionista e
dono, traído, da Petrobras.
Ainda não apareceram denúncias de
superfaturamento nos projetos das refinarias Premium do Maranhão e do
Ceará. Os projetos foram cancelados, uma das últimas decisões da
diretoria de Graça Foster, depois de um gasto de R$ 2,7 bilhões. Ou, um
bilhão de dólares, para nada, para uma papelada sem valor.
E tem o
incrível, e maior, prejuízo imposto ao caixa da empresa, com o controle
dos preços da gasolina e do diesel. Segundo cálculos feitos dentro da
estatal, foram nada menos que R$ 60 bilhões ao longo dos anos que a
Petrobras foi levada a vender combustível a preço menor do que pago na
importação. Uma sangria no caixa, que virou endividamento.
Nesta
outra história não há dúvida nenhuma. A culpa é de quem mandou na
Petrobras nos governos Lula e Dilma, a começar por Lula e Dilma. Essa
responsabilidade só pode ser apurada nos foros políticos. Aliás, no que
sobrar dos foros políticos depois da Lava-Jato.
fonte avarandablogspot
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