editorial do Estadão
A expressiva votação no plenário da Câmara dos Deputados pela cassação
de André Vargas - 359 votos a favor, 1 contra e 6 abstenções - não apaga
a principal marca desse ato: o incrível atraso do Congresso em cassar
um deputado envolto em graves denúncias que estão na origem de toda a
Operação Lava Jato. A sua atual situação partidária - no momento está
sem partido - também não apaga a sua história, umbilicalmente unida ao
Partido dos Trabalhadores (PT).
O processo de cassação por quebra de decoro parlamentar originou-se a
partir da denúncia de que o parlamentar havia utilizado um jatinho pago
pelo doleiro Alberto Youssef, preso pela Polícia Federal na Operação
Lava Jato por crime de lavagem de dinheiro. Tal denúncia veio à tona em
fevereiro deste ano. Várias manobras, coordenadas por André Vargas e
sustentadas por seus aliados históricos, foram feitas para postergar a
cassação. Apenas na Comissão de Constituição e Justiça, Vargas e sua
turma conseguiram adiar por seis vezes consecutivas o julgamento do
recurso que ele mesmo havia impetrado contra o pedido de cassação
proferido no âmbito do Conselho de Ética.
A inexplicável demora na cassação talvez possa ser explicada olhando o
histórico do parlamentar. André Vargas era um deputado influente. Na
época das denúncias, era vice-presidente da Câmara. Foi presidente
municipal do PT em Londrina de 1999 a 2000 e presidente estadual do PT
no Paraná de 2001 a 2006. Em 2000, elegeu-se vereador por Londrina e em
2002, deputado estadual. Na eleição seguinte, foi alçado a deputado
federal, conseguindo se reeleger em 2010 com uma expressiva votação:
naquele ano, foi o terceiro deputado federal mais votado do Paraná. O PT
ainda o indicou como candidato à prefeitura de Londrina em 2008, mas
não teve o mesmo sucesso das eleições legislativas.
No início de 2014, Vargas ganhou notoriedade após ter erguido o braço
com o punho cerrado ao lado do então presidente do Supremo Tribunal
Federal (STF), Joaquim Barbosa, durante uma sessão do Congresso. O
deputado repetia assim o gesto de tantos petistas em apoio aos réus do
mensalão. No entanto, logo após esse gesto, a sua trajetória política
sofreria uma reviravolta. De apoiador de corruptos passaria a ser ele
mesmo alvo de investigação por corrupção. Em fevereiro, surgiram
denúncias de que teria intermediado negócios do doleiro Alberto Youssef
com o Ministério da Saúde e de ter usado um jatinho do doleiro. Essas
denúncias tinham por base quase cinquenta mensagens registradas pela
Polícia Federal, nas quais Vargas mantinha um profícuo intercâmbio
profissional: transmitia a Youssef informações que, como parlamentar do
PT, obtinha com membros do governo; por sua vez, recebia valiosas
orientações do doleiro.
Com uma ficha que ia ficando a cada dia mais suja e a proximidade das
eleições, André Vargas se tornou um problema para o PT. Após receber
pressões do seu partido, ele anunciou em finais de abril que se
desligava da legenda petista, "após vinte e quatro anos de uma relação
que me concedeu oportunidades para servir ao meu Estado e ao Brasil".
A partir de então, Vargas dedicaria os seus mais diligentes esforços
para impedir que o processo de cassação por "quebra de decoro
parlamentar" - poucas vezes se viu um eufemismo tão gritante - fosse
adiante. Obteve relativo sucesso, estendendo o seu caso até o dia 10 de
dezembro, data da sua cassação pelo plenário da Câmara. Vargas ainda
tentou impedir a votação, impetrando na semana anterior um mandado de
segurança no STF, mas o pedido de liminar foi negado.
A tardia cassação de André Vargas assinala ao menos duas importantes
mensagens para o Brasil atual. Votação popular não confere imunidade
para a prática de crimes. Ou seja, o fato de ganhar as eleições não
exclui ninguém de eventuais investigações, e isso nada tem a ver com
revisão do resultado das eleições. A segunda mensagem também é clara. Do
mesmo modo que as denúncias contra Vargas foram o começo, a sua
cassação pode ser apenas o início de todas as outras que se mostrarem
necessárias ao longo das investigações Lava Jato.
fonte rota2014





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