por Nelson Motta O GLOBO
O mau-caráter, o desonesto, o sem-vergonha, o corrupto nasceram com o homem, mas nunca na história deste país eles foram tantos e tão poderosos
A emoção serve para ganhar eleição, mas para governar o que vale é a
razão. Mas parece cada vez mais difícil, justo num momento muito difícil
para o país, estabelecer-se um debate racional e qualificado sobre os
graves problemas que todos conhecem. Ninguém, nenhuma corporação, nenhum
partido tem força política, popular, econômica e moral para mudar nada
sozinho. É hora de negociar soluções para os impasses que atrasam e
empobrecem o país, sem ser mais rigoroso com os outros e mais
complacente com os seus.
Mas, quando se fala em negociar, qualquer brasileiro logo associa a
falcatruas, vantagens indevidas, propinas e outros crimes corriqueiros
no cotidiano nacional, em todos os níveis da administração pública. Sim,
existem negociações legítimas e possíveis, dependendo dos
interlocutores, de sua credibilidade e, principalmente, de boa vontade e
tolerância, que, longe de serem sinais de fraqueza, representam
superioridade moral.
Na negociação que levou Joaquim Levy ao comando da economia, a razão
venceu a emoção. Mas sobre o aparelhamento das estatais, um dos fatores
geradores da corrupção, ninguém fala. Não basta trocar de nomes, é
preciso mudar conceitos e valores. Ou, como diria Paulo Maluf com sua
voz anasalada e a crueza de um quibe cru: “Não adianta trocar as moscas,
precisamos é sair da merda.”
Cheios de razão, milhares de funcionários e ex-diretores corretos,
eficientes e dedicados da Petrobras, e de outras estatais, a imensa
maioria que construiu com seu trabalho a grandeza das empresas, estão
indignados com a tática defensiva dos delinquentes de dizer que todos
fazem, que sempre foi assim, jogando no mesmo saco de lixo os melhores e
os piores para dar a ideia que todos são iguais e, por isso, a culpa
deve ser diluída, e ninguém condenado. Como se fossem todos óleo do
mesmo barril, querem que a mancha se espalhe no mar do esquecimento e
tudo mude para nada mudar.
O mau-caráter, o desonesto, o sem-vergonha, o corrupto nasceram com o
homem, mas nunca na história deste país eles foram tantos e tão
poderosos, ao mesmo tempo: nada é mais organizado do que o crime no
Brasil.
FONTE ROTA2014





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