por Dora Kramer O ESTADO DE SÃO PAULO
Ao contrário do que possam pensar os soldados tão exaltados quanto
desavisados da guerra em curso na internet, o PT não está assim
desarvorado quanto parece com o comportamento - ainda é cedo para dizer
se duradouro ou fugaz - da oposição que desde a eleição se revela.
Forjados na disputa, petistas do Executivo, do Legislativo ou na máquina
do partido sabem muito bem qual é o nome e quais são as regras do jogo.
Não estão sendo ingênuos quando pedem e repetem que o senador Aécio
Neves e companhia desarmem os palanques e "respeitem" o resultado das
eleições, não obstante lá se vá um mês e tanto do final do pleito e do
formal reconhecimento da legitimidade do resultado por parte do então
candidato.
Cândidos - para contabilizar só os de boa-fé - são os que absorvem como
argumento válido o mero exercício de retórica e saem por aí repetindo o
que interessa às cobras muito bem criadas nesse vaivém da política.
Evidente que ao PT agradaria muito mais manter a situação anterior, dos
12 anos em que o País viveu apático, praticamente sem oposição.
Então, quando o contraditório se apresenta forte, sem meias palavras,
dando às coisas os nomes que elas merecem ter, o partido reage. Ao seu
modo tradicional de reagir. De maneira radical. Como? Acusando o
adversário de golpista, antidemocrático, buscando empurrá-lo para a
ilegalidade e, se não for possível, o jogando no campo do burlesco.
É o que já estão fazendo alguns grupos, disseminando versões de que o
senador Aécio Neves seria um "bobo" em atuação de linha de frente a
mando de Fernando Henrique Cardoso que, por esse raciocínio, ficaria
preservado para agir nos bastidores. Resta saber o seguinte: agir em
prol de qual ação? A favor do governo é que não seria.
Com 12 anos de atraso, a oposição decidiu apresentar suas credenciais. E
não há nisso nada demais. Se houver, há de menos, pois de
institucionalmente anormal foram os últimos anos em que o País viveu de
maneira apática, praticamente sem oposição. O governo fala em descida do
palanque, quando foi ele quem nos intervalos entre uma eleição e outra
ficou permanentemente em cima do tablado eleitoral ao arrepio da lei e
da ética.
É o último a poder fazer reparos e o menos autorizado a se queixar da
assertividade da oposição, pois foi sempre o primeiro a zombar da
maneira desajeitada de o adversário lidar com o contraditório. Golpismo
mediante pedidos ainda inócuos de impeachment? Seria inusitado e até
mesmo engraçado, não fosse o PT tão experiente no tema.
Opinião dura. Duas
pesquisas interessantes do instituto Datafolha publicadas recentemente:
uma diz que 68% dos brasileiros atribuem algum tipo de responsabilidade
à presidente Dilma Rousseff pelo escândalo da Petrobrás. Suficiente
para o Planalto ao menos reaver a estratégia de comunicação segundo a
qual a chefe do governo nunca teve conhecimento do esquema de corrupção
na estatal.
Outra consulta mostra que 66% das pessoas aprovam a democracia como o
melhor regime de governo. O mais alto desde 1989. Nos calcanhares da
ditadura, apenas 43% acreditavam que o fim do regime militar era a
melhor solução.
Hoje em dia, mais que o grau de satisfação de 66% da população com a
democracia, chama atenção a quantidade de gente indiferente à natureza
do regime. Para 27%, tanto faz democracia ou ditadura ou mesmo que "em
determinadas circunstâncias" o governo imponha como regra a supressão
das liberdades.
FONTE ROTA2014





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