VOTO AÉCIO NEVES 45
por Luiz Werneck Vianna
Desde Marx o tema das relações entre o moderno e o atraso é clássico na
tradição da esquerda e raiz de fortes controvérsias. Não à toa, uma vez
que em sua obra, especialmente em seus artigos políticos, Marx admitiu,
respondendo a uma consulta feita por uma destacada liderança dos
populistas revolucionários russos, a possibilidade de um salto
revolucionário do atraso para o moderno - no caso, das comunas
tradicionais (o mir)
para o socialismo -, que assim poderia evitar "o cortejo de misérias do
processo de acumulação primitiva do capitalismo" de que a Inglaterra
seria paradigmática.
No caso, embora reconhecesse como legítima e plausível a questão que lhe
era posta, o autor deixava claro que ela não encontraria fundamentação
teórica em O Capital, sua opera magna dedicada
à investigação do capitalismo em sua forma plenamente desenvolvida,
reclamando estudos aprofundados sobre formações sociais de base agrária,
como a russa, que ele então pesquisava.
Depois de sua morte, seu legado intelectual foi confiado, primeiro, a
Engels, amigo e companheiro de toda a sua vida, e depois a Karl Kautsky,
expoente da II Internacional e da social-democracia alemã, cenário bem
distinto do russo, com a questão agrária já resolvida por meio de uma
modernização pelo alto em
favor da grande propriedade fundiária capitalista. Na interpretação de
Kautsky, as chamadas forças sociais retardatárias, como o campesinato,
não estariam destinadas ao desempenho de papéis ativos na revolução
socialista em razão de seus vínculos de origem ao princípio da
propriedade privada. Tais forças deveriam contar apenas como aliadas
eventuais e temporárias. Caberia ao operariado, organizado em torno de
sua vanguarda política, o enfrentamento com o capitalismo, que à medida
que se aprofundava como modo de produção operaria como um simplificador
da estrutura de classes, opondo em antagonismo radical as forças do
capital às do trabalho, estas últimas tendencialmente majoritárias.
A transição para o socialismo seria, nessa versão, obra do moderno e
dependente de uma plena maturação do capitalismo, construção teórica
escorada em textos do próprio Marx, como no prefácio de 1859 à Contribuição à Crítica da Economia Política,
quando sustentou que "nenhuma formação social desaparece antes que se
desenvolvam todas as forças produtivas que ela contém". Não importa,
como vimos, que, mais tarde, ele tenha valorizado em vários textos o
papel das forças retardatárias no processo da revolução socialista, pois
seu enunciado de 59 foi elevado a cânon da II Internacional.
A crítica a esse postulado veio dos revolucionários russos, Trotsky e
Lenin à frente, que romperam com essa visão linear ao defenderem a
teoria de um desenvolvimento desigual e combinado, que implicaria uma
nova leitura para as relações entre o moderno e o atraso. Segundo ela, o
atraso, longe de se constituir em obstáculo para a revolução
socialista, podia se apresentar como uma vantagem, caso de uma aliança
operário-camponesa realizada sob a hegemonia do primeiro. Como notório, a
criação do primeiro Estado socialista, em 1917, foi filha dessa teoria -
um país majoritariamente agrário e de capitalismo inconcluso teria
saltado etapas, aproveitando-se de forças da tradição como o
campesinato.
O tema das vantagens do atraso correu mundo. O jovem Gramsci, em nome
delas, num artigo sempre lembrado, vai saudar a vitória dos comunistas
russos como "a revolução contra O Capital"
(no caso, a obra de Marx), e as revoluções do século 20 nos países de
capitalismo retardatário as tiveram como referência. Com a esquerda
brasileira, em boa parte de sua história, não foi diferente, embora a
partir de fins dos anos 50 tenha cedido em importância à questão
nacional.
Nessa reviravolta, a esquerda, então sob majoritária influência do
Partido Comunista Brasileiro, optou pelo caminho da modernização do
País, que supunha, no contexto da época, uma aliança com o que então se
caracterizava como burguesia nacional. Nessa nova equação, "as
vantagens", para a esquerda, trocam de lugar: seu eixo passa a gravitar
em torno da agenda do moderno, e não mais na do atraso.
O golpe de 1964 desmarcou essa topografia política. O regime militar
assumiu como estratégia a captura da agenda da modernização, reeditando,
no estilo, em temas e muitos dos antigos personagens, a que foi
empreendida por Vargas sob a modelagem autoritária do regime do Estado
Novo de 1937. Não por acaso, a questão agrária foi compreendida como
central pelo regime militar. A derrota política desse regime, com a
institucionalização da democracia pela Carta de 1988, sob roupas novas e
em cenário radicalmente distinto, nos trouxe de volta a difícil relação
entre o moderno e o atraso.
A barafunda ideológica em que se converteu a presente sucessão
presidencial vem toldando a percepção dessa relevante questão, de que o
constituinte não se descuidou e nada tem de anacrônica. Ela está aí no
tema da Federação, tão pouco discutido, na questão agrária (ainda!), de
que se tem passado ao largo, e das populações indígenas e quilombolas.
Sobretudo na falta de vínculos dos partidos, notadamente os de esquerda,
com os setores sociais ditos retardatários, confiados, no melhor dos
casos, à ação tutelar do Estado. Vale notar igualmente, para não ficar
sem registro, a distância que os sindicatos de trabalhadores mantêm com a
vida popular, entregues a uma pauta meramente corporativa - o tema do
sindicalismo tem sido outro ausente dos debates eleitorais.
Nada poderia testemunhar melhor a indigência atual da nossa discussão
política do que a tentativa de traduzir essa questão capital numa
grosseira oposição entre ricos e pobres, como se a política ora em curso
fosse inocente quanto ao abismo social e político existente entre eles.
* Professor-pesquisador do Departamento de Ciências Sociais da PUC-Rio
FONTE ROTA2014





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