, editorial de O Globo
A reclassificação da nota do Brasil, feita em abril de 2008 pela agência
de avaliação de risco Standard&Poor’s, para “grau de investimento",
atestado positivo a quem desejasse adquirir títulos do país, foi
recebida com o ufanismo petista característico pelo então presidente
Lula — “somos um país sério". Sete anos depois, a mesma S&P rebaixa a
nota brasileira para o nível de “junk”, lixo, e ainda estabelece um
viés negativo, primeiro passo para novo rebaixamento. Neste meio tempo,
transcorreu uma ilustrativa história.
A erosão da imagem do Brasil como parceiro de negócios neste mundo
globalizado vinha sendo um trabalho meticuloso, já em curso desde o
final do primeiro mandato de Lula, em 2005, quando Dilma Rousseff foi
nomeada chefe da Casa Civil, no lugar de José Dirceu, avariado pela
denúncia do mensalão.
Ali, a futura presidente já demonstrara considerar equilíbrio fiscal
mania de economista conservador, “neoliberal”. Foi o que, na essência,
disse quando tachou de “rudimentar” sensata proposta formulada pelos
colegas Antonio Palocci (Fazenda) e Paulo Bernardo (Planejamento), para
fazer as despesas públicas avançarem numa velocidade menor que o PIB.
A escolha para o Ministério da Fazenda de Joaquim Levy, secretário do
Tesouro no adequado ajuste feito na primeira fase do mandato inicial de
Lula, foi um sinal positivo que levou à suposição de que a presidente
aprendera a lição de que contas públicas necessitam de equilíbrio depois
da fase “anticíclica”. O rebaixamento pela S&P mostra que a
conversão dela à sensatez econômica não foi convincente.
Reconheça-se que a crise política não ajuda na solução dos sérios
desequilíbrios nas contas públicas. Mas também o Planalto contribuiu
bastante para o rebaixamento, por não se definir por um ajuste real, via
cortes de despesas. Sequer disfarçou a preferência pela moderação do
ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, próximo ao PT.
Não se deve cobrar de Levy o rebaixamento, por ele não ter alegadamente
convencido a S&P — outras grandes agências devem ir pelo mesmo
caminho — a dar mais um tempo ao Brasil. Na verdade, foi dado, mas não
aproveitado. À apresentação de um Orçamento com um déficit de 0,35% do
PIB, um exercício de alguma transparência, não se seguiu qualquer
proposta séria e efetiva de ajuste. Apenas, e desgraçadamente,
declarações desencontradas da presidente. Ora, contra cortes; ora, na
direção contrária, reflexo de culpas ideológicas. A S&P, em seu
comunicado, fez sintomática referência aos desencontros no Ministério de
Dilma. Alimentados por ela, acrescente-se.
Consumado o estrago, com péssimos reflexos no câmbio, na inflação, nos
juros e, consequentemente, na recessão, é cuidar de reduzir os danos e,
enfim, propor ao Congresso um firme e correto plano de ajuste pelas
despesas, sem sacrificar ainda mais o contribuinte. Até porque será
contraproducente, dado o já enorme peso da carga tributária,
Na reunião de ontem com ministros e o vice-presidente Michel Temer,
Dilma pediu urgência na definição de cortes no Orçamento, em busca de um
superávit no ano que vem de 0,7% do PIB, pelo qual se bate Levy. É
acertada a determinação da presidente. Mas como ela já voltou atrás
nessa questão algumas vezes, trata-se de esperar para se ter certeza do
efeito pedagógico do rebaixamento do país.
extraídaderota2014blogspot





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