por Reinaldo Azevedo - Veja Folha de São Paulo
Dilma deveria renunciar. Seria um gesto delicado com o Brasil. Todos
receberíamos a decisão como um pedido de desculpas, ainda que
silencioso. Não é possível que ela não perceba que já não tem como fazer
parte da solução. Tornou-se só um catalisador de problemas.
A presidente precisa reler aquele seu Riobaldo de uma nota só: "O que
ela [a vida] quer da gente é coragem", tomada a frase como sinônimo de
teimosia e resistência. Até porque o sentido original do texto –vá lá
ver, leitor, em "Grande Sertão Veredas"– é outro. Minas lhe oferece uma
saída honrosa, com Drummond:
"Há uma hora em que os bares se fecham/ e todas as virtudes se negam".
Acabou.
Não é conspiração, não é golpe, não é tramoia, não é sina, não é nem
mesmo fraqueza. Memórias de um ex-jagunço sentimental e sentencioso, em
momentos assim, viram só mais uma pedra no meio do caminho. É a
realidade, a carnadura concreta da poética do poder, para apelar um
pouquinho a João Cabral, que impõe à petista o ato elegante. Dou de
barato que ela fez o possível, atendendo aos ditames de sua formação
intelectual e do partido em cujo altar teve de se ajoelhar.
Temos aí "a soma e o resto", para citar Henri Lefebvre, que rompeu com o
Partido Comunista quando a petista desta história tinha só... 11 anos!
Não é que tenha dado tudo errado com o seu governo. Em certa medida, deu
tudo certíssimo, segundo, ao menos, a matemática entranhada nas coisas.
As despesas cresciam sistematicamente acima da receita. Quando o
binômio supervalorização das commodities/modelo ancorado no consumo
evidenciou que não era sustentável, a partir de meados de 2012, ela
resolveu alimentá-lo com medidas adicionais que... aumentaram as
despesas e diminuíram a receita! As tarifas públicas foram represadas
para conter a inflação, estimulada pelos anabolizantes injetados na
economia. E o país quebrou. CQD. Como queríamos demonstrar.
Quantas vezes a mandatária foi advertida para o que havia do lado de lá
do sinal de igualdade da equação petista? Não obstante, os críticos eram
demonizados, ridicularizados, tratados como inimigos do povo. Ainda
hoje se procura fazer deles uma caricatura, desqualificando-os como
interlocutores do jogo democrático –e a interlocução na democracia se
faz é entre adversários, não entre aliados. No fim das contas, vamos
convir, nem a senhora, presidente, nem seu partido entendem direito essa
conversa de tensão virtuosa entre contrários. O petismo atua é para
eliminar os que não se rendem.
Agora não há mais tempo. Algum entendimento terá de ser feito para
convencer a sociedade de sacrifícios adicionais, além daqueles que já
estão em curso. Ou é isso, ou vem por aí uma espiral negativa de
longuíssima duração. E a arena desse pensamento não é o Ministério da
Fazenda. A Joaquim Levy, ou a outro, entregar-se-á uma máquina de
calcular números. A realidade exige alguém que seja bom no cálculo
político.
Ocorre que isso não se faz sem uma relação de confiança, que não existe
mais. É preciso saber identificar o momento em que todos os bares se
fecham e as virtudes se negam. Tá bom, presidente! Eu a deixo com o seu
Riobaldo. Mas com um outro –aquele que cobra da senhora é coragem.
extraídaderota2014blogspot





0 comments:
Postar um comentário