editorial de O Globo
O indiciamento do ex-ministro José Dirceu, na terça-feira, no processo
do petrolão, escândalo ainda sendo desvendado pela Operação Lava-Jato, é
mais um atribulado capítulo na vida da segunda pessoa mais poderosa do
PT durante muito tempo. A primeira sempre foi Lula, claro. Na sexta,
veio a denúncia pelo Ministério Público.
Assim como já ocorreu no processo do mensalão, em que o chefe da Casa
Civil durante quase todo o primeiro governo Lula foi denunciado, julgado
e condenado, o indiciamento de Dirceu no petrolão seria um desfecho
improvável. Pois não é sempre que um apenado — Dirceu cumpria pena de
prisão domiciliar na condição de mensaleiro — tem outra prisão
decretada.
Desta vez, Dirceu é acusado de corrupção passiva, lavagem de dinheiro,
formação de quadrilha e falsidade ideológica. No julgamento do Supremo
Tribunal, Dirceu se livrou de ser condenado por formação de quadrilha.
Desta vez, a ver.
O ex-ministro cumpre aguda trajetória de queda, depois de firme ascensão
desde que se aproximou de Lula, presidiu o PT e foi um responsável
direto por conduzir o ex-metalúrgico à primeira vitória em eleições
presidenciais, em 2002, depois de três tentativas.
Dirceu subiu à rampa do Planalto, com Lula, na condição de homem forte
do governo e provável sucessor do presidente, como parte do projeto de
poder de ambos, do PT e satélites. Ajudou Lula a montar o governo e deu o
primeiro passo para frequentar cárceres, ao prosseguir com a construção
do esquema do mensalão, já esboçado na campanha de 2002.
Dirceu é um dos artífices do lulopetismo. E, tanto quanto o próprio
Lula, personifica a antiga regra da militância radical: que os fins
justificam os meios. Por isso, mesmo condenado no julgamento do
mensalão, era saudado em assembleias petistas como “herói do povo
brasileiro”. Mas caiu em desgraça ao surgirem evidências de
enriquecimento pessoal com o dinheiro surrupiado da Petrobras.
Revelou-se, então, de vez, a estranha ética “revolucionária”: pode
roubar dinheiro público, mas se for para a causa. Perpetuação no poder,
redenção dos pobres etc. Ora, desvio de dinheiro, público ou privado, é
crime do mesmo jeito.
Dirceu preso, em Curitiba, acusado de novos delitos — sempre em
operações de corrupção —, de “herói do povo brasileiro” vira símbolo do
fortalecimento das instituições republicanas, do estado democrático de
direito. Desde Collor, o Brasil tem demonstrado contar com instituições
que garantem o saudável e democrático confronto de ideias, mas com
anticorpos para se defender de grupos políticos que se valem da
democracia representativa para destruí-la. Foi assim em Venezuela,
Equador e Bolívia. Fica evidente que o melhor antídoto contra o
autoritarismo é o trabalho conjunto de organismos de Estado, conjugado
com as liberdades de imprensa e expressão, em geral. O destino de Dirceu
e a dessacralização de Lula são prova disso.
extraídaderota2014blogspot





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