por Reinaldo Azevedo FOLHA DE SÃO PAULO
Em 10 dias, a presidente Dilma Rousseff foi bem-sucedida no esforço para
que Michel Temer deixasse a coordenação política; permitiu que alguns
de seus gênios fizessem o anúncio branco da volta da CPMF –como se fosse
mero ato de vontade;
estimulou o ministro da Saúde a tentar atrair, inutilmente, os
governadores para a armadilha; viu o país dizer "não" em uníssono a um
novo imposto; assustou o empresariado, que vinha ensaiando uma
aproximação e desistiu da tunga. Pareceu pouco à governanta.
No período, ela enviou ao Congresso um Orçamento com deficit na
esperança de unir as forças políticas ao ameaçá-las com o caos; largou a
batata quente na mão do Parlamento para que este encontrasse as
receitas de sua licenciosidade;
provocou a disparada do dólar; encontrou-se com Eduardo Cunha em torno
do nada; anunciou que pode rever a peça orçamentária; reconvidou Temer
para a coordenação política e viu recusado o convite...
Patamar do dólar em meados de dezembro de 2002, quando ninguém conhecia
um governo do PT: R$ 3,70. Patamar do dólar no começo de setembro de
2015, quando todos já conhecem o que é governo do PT: R$ 3,70. No
primeiro caso, não se sabia nada do que o partido era capaz; no segundo,
já se sabe tudo de que é capaz. Moeda desvalorizada pode ser uma
escolha de política econômica. Não é o caso.
Tenho insistido aqui, e onde quer que me expresse, que o governo já
passou do ponto em que medidas corretivas podem ser adotadas. É evidente
que Joaquim Levy, ministro da Fazenda, está sendo malsucedido. Não por
má vontade ou por incompetência específica, mas porque suas respostas
são estranhas ao arco de compromissos do petismo. Houve, como se sabe,
um primeiro voto de confiança na sua capacidade de levar um pouco de
racionalidade ao governo. A esta altura, a crise de confiança que atinge
Dilma já contaminou o seu ministro da Fazenda.
Até quando Levy parecia a âncora de estabilidade da presidente, aqui e
ali se ensaiava algum otimismo. Mas os desastres em série protagonizados
pela chefe do Executivo fragilizaram o homem forte da economia, e agora
é ela quem tem de vir a público para garantir a permanência do seu
ministro. É uma questão de justiça a gente reconhecer momentos
inaugurais. Dilma é a nossa Gilda. Nunca antes...
Outro assunto. Ricardo Melo despediu-se deste espaço na
segunda para ser diretor de jornalismo da EBC, cargo de confiança do
governo do PT, o que me parece tão justo como merecido. Na sua coluna
derradeira, insinua que vai se dedicar à "democratização dos meios de
comunicação" para "assegurar a verdadeira liberdade de imprensa". Restou
a sugestão de que a nossa é falsa.
Foi além e garantiu que, "qualquer que seja esta nova paisagem [a da "verdadeira liberdade"], a Folha tem
seu lugar assegurado." Que bom! Aqui ao menos, e enquanto aqui estiver,
sinto-me protegido das suas tentações democratizantes. Já nos meus
outros empregos, não sei...
Melo aproveitou para rasgar elogios ao jornal, expondo um dos motivos da
lisonja: jamais foi censurado. Bem, nem seria possível. Censura é
apanágio do oficialismo ou de milícias. A Folha publica o que quiser porque é um jornal privado. Ou não existiria "verdadeira liberdade de imprensa".
Compreendo que os petistas queiram controlar a mídia. Afinal, é impossível controlar a Dilma.
EXTRAÍDADAROTA2014





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