editorial do Estadão
Em sua coluna no Estado Dora Kramer colocou o dedo na chaga:
“Vamos ao ponto: José Dirceu só fez o que os investigadores da Operação
Lava Jato dizem que ele fez na Petrobras e cercanias da máquina pública
porque a instância superior a ele deixou que fizesse”. De fato, o
conjunto de evidências e provas fartamente apresentadas pelo juiz Sergio
Moro na decretação da prisão preventiva do ex-ministro e ex-presidente
do PT estimula a suspeita – que perdura há 10 anos, desde o estouro do
escândalo do mensalão – de que José Dirceu não agiu por conta própria ao
arquitetar e executar a trama criminosa pela qual foi condenado. Com a
cautela que se exige de um profissional de imprensa responsável, Kramer
observa: “Resta saber – e comprovar – se a instância superior a José
Dirceu, a Presidência da República, à época ocupada por Luiz Inácio da
Silva, detinha o domínio daqueles fatos”.
Domínio do fato – este é o ponto crucial da questão. Essa teoria, que
embasou várias decisões no julgamento do mensalão, consagra,
simplificadamente, o princípio de que, em determinadas circunstâncias,
quando existe uma relação hierárquica, mesmo que não seja o mandante, é
impossível que o hierarca superior ignore o delito praticado por seu
subordinado, o que o torna corresponsável pela infração.
Até cair nas malhas da Justiça José Dirceu era o segundo no comando do
governo e do PT. Foi ele, com a ousadia e o destemor que sempre marcaram
sua atuação política, o articulador da estratégia de alianças que
quebraram as resistências da ortodoxia petista e abriram caminho para a
vitória nas urnas em 2002. Chegou ao governo com uma autoridade
incontrastável que desde logo o guindou à condição de herdeiro
presuntivo da coroa. Razão mais do que suficiente para que o rei do
pedaço se mantivesse sempre muito atento a seus passos, até porque o
elevara à condição de primeiro-ministro de fato.
Cabe, então, a pergunta: é plausível a hipótese de que Lula – que,
definitivamente, de tolo não tem nada – não se tenha dado conta de que
José Dirceu tramava sob seu nariz aquela que se revelou ser apenas a
primeira fase de um processo de corrupção que evoluiu para o petrolão e
ainda não se sabe onde vai chegar? Tratava-se, afinal, de uma
conspiração para dar respaldo financeiro ao ambicioso projeto político
do PT e, já que o dinheiro estava à mão, engordar a poupança de
políticos, empresários e agentes inescrupulosos.
O retrospecto do episódio do mensalão demonstra que era de natureza
essencialmente política o principal motivo pelo qual as investigações de
então passaram ao largo da Presidência da República. A chefia do
governo era exercida por um líder popular de origem humilde, com
prestígio em ascensão dentro e fora do País, envolto pela aura de
construtor de uma nova era de justiça social e de prosperidade. Até por
conta de seu carisma, qualquer ameaça ao poder de Lula poderia ser
interpretada pela maior parte dos brasileiros como golpismo da “elite” e
pôr em risco o equilíbrio das instituições. A oposição partidária se
deu conta desse risco e aliviou a pressão sobre o Planalto. Lula saiu
ileso e fortalecido, mas hoje não é mais o mesmo.
Como comprovam as investigações da Lava Jato, o esquema criminoso
ensaiado no mensalão ampliou-se em proporções gigantescas com o
propinoduto da Petrobrás e, ao que tudo indica, espalhou-se pelo setor
público numa extensão ainda desconhecida. De quebra, José Dirceu, o
herói popular “injustiçado” pelo STF, surge desse enredo como um tipo
muito diligente também quando se trata de encher o próprio bolso.
Reagindo à nova prisão do desmoralizado “guerreiro do povo brasileiro”,
intelectuais “de esquerda”, alheios aos fatos, recorrem a qualquer
argumento na tentativa de desmoralizar as investigações do Ministério
Público e da Polícia Federal, bem como a integridade do juiz Sergio
Moro. Um deles “denunciou” que a intenção dissimulada da “direita” é
atingir Lula. É difícil de saber se a “direita” terá esse poder. Mas
hoje a Justiça certamente o tem, se houver provas que o incriminem. E
não há nada de sub-reptício nisso.





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