por Carlos Alberto Sardenberg O GLOBO
Em países eticamente mais desenvolvidos, político denunciado de maneira consistente, mesmo que só na imprensa, renuncia
Pode parecer coisa pequena neste momento de grandes crises, mas serve
para demonstrar um padrão de estímulo à ilegalidade. Seguinte: de cada
dez motoristas já apanhados dirigindo bêbados, seis continuam por aí
guiando seus carros e com a carteira de habilitação na mão. Tudo dentro
da lei. Isso foi medido em São Paulo, mas pode apostar que o padrão se
repete pelo país.
Reparem agora em ambiente, digamos, mais importante, Brasília. O senador
Ivo Cassol (PP-RO) está condenado no Supremo Tribunal Federal desde
2013, por fraude em licitações, crime cometido entre 1998 e 2002, quando
ele era prefeito de Rolim de Moura.
Se quiserem encontrar Cassol, podem procurar no seu gabinete no Senado. Ele está dentro da lei.
Nos dois casos, os recursos garantem a permanência legal da ilegalidade.
Apanhando bêbado, o motorista recebe uma multa, da qual pode recorrer em
três instâncias. Se perder em todas, tendo, portanto, a multa
confirmada, e se cometer outras infrações, chegando aos 20 pontos, ainda
assim não perde a carteira. Tem direito a mais três recursos. E segue
por aí, barbarizando com carteira em ordem.
Cassol foi o primeiro senador condenado no STF desde a vigência da Constituição de 88.
Foi recentemente condenado outra vez, na Justiça Federal, por improbidade administrativa.
Tudo somado, são quatro anos e oito meses de cadeia, mais cerca de R$ 2
milhões entre multas e dinheiro que deve devolver. Deveria. Tem recurso
pendente no STF. A reparar: ilícitos, na sentença do tribunal, cometidos
há 13 anos, condenado há dois e, tudo bem, continua ativo no Senado.
Entre suas recentes tarefas, aliás, relata um pedido de investigação de
contratos da Procuradoria-Geral da República, apresentado pelo seu
colega Fernando Collor.
Diante disso, qual o problema de dirigir bêbado? Ou ainda, qual o
problema se os presidentes da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e do
Senado, Renan Calheiros, são oficialmente investigados no STF, no âmbito
da Lava-Jato, e continuam no cargo?
Nos Estados Unidos, o sujeito apanhado dirigindo bêbado vai para a
cadeia, de lá para o juiz, já recebe a pena e perde a carteira. Pode
recorrer, mas fica sem o documento. Aqui, vai para a delegacia, assopra o
bafômetro, se quiser, e vai para casa. Se bobear, dirigindo o seu
carro.
(Um amigo meu, homem honesto, tomou os 20 pontos. Em vez de recorrer,
deixou o carro em casa e foi se matricular em um curso de direção,
condição legal para reaver a habilitação. A atendente deu o preço e
informou que incluía estacionamento. Ele estranhou: mas é um curso para
quem perdeu a carteira! E ela: ora doutor...).
Em países eticamente mais desenvolvidos, como no Japão, o político,
quando denunciado de maneira maios ou menos consistente, mesmo que seja
só na imprensa, renuncia e vai se defender. Na Alemanha, um ministro
renunciou ao ser acusado de plágio numa tese acadêmica apresentada
vários anos antes.
Não vale simplesmente colocar a culpa nos políticos e legisladores. Sim,
é fácil mudar o sistema de punições no trânsito. Basta alterar a lei no
Congresso Nacional. Mas por que não se toma essa iniciativa? Porque
mesmo políticos honestos não gostam de se meter nessas pautas ditas
impopulares. Já anistias de multas passam facilmente nas Assembleias
Legislativas.
Também são populares as reclamações contra radares. Por isso mesmo, até
2012, a lei determinava que o radar deve ser colocado em lugar visível e
com sinalização avisando que o “pardal” está logo adiante. A mensagem:
caro motorista, a velocidade máxima aqui é de 100 km/hora, mas você,
perdão, o senhor ou a senhora só precisam respeitá-la nos trechos
imediatamente anteriores aos radares, convenientemente sinalizados.
Mais: no caso de se distrair e for flagrado, fique tranquilo, tem
direito a seis recursos.
O Conselho Nacional de Trânsito eliminou a exigência de aviso prévio dos
radares, mas há vários projetos de lei no Congresso restabelecendo a
sinalização anterior (curiosamente, um desses projetos é do ex-deputado
Luís Argolo, preso na Lava-Jato). Em câmaras de vereadores, toda hora
aparece um projeto proibindo radares móveis, por exemplo. A Assembleia
Legislativa de Santa Catarina foi mais longe: chegou a proibir a
instalação de radares de qualquer tipo nas rodovias estaduais.
São coisas pequenas e coisas grandes. O padrão de ilegalidade é o mesmo.
Dos “pequenos crimes” chega-se a uma Lava-Jato. O desmonte da grande
corrupção deve fazer o caminho inverso e levar o pessoal a perceber que,
convenhamos, tem que respeitar a regra, do estacionamento proibido até a
licitação de uma plataforma de petróleo.
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