por Arnaldo Jabor O Globo
“Tenho tido pesadelos, senhor juiz; sonho que morri assassinado por mim
mesmo, que estou preso com traficantes estupradores. Não mereço isso,
eu, que sempre assumi minha condição de corrupto ativo e passivo. Por
isso, hoje sou delator, senhor. Mas não sou apenas um delator de
obviedades sabidas há séculos, tipo fulano levou tanto de grana, sicrano
recebeu propina etc. Isso é café pequeno. Eu vi muita coisa com estes
olhos que espiam pelas janelas da Papuda, esperando minha redução da
pena. Eu faço uma delação profunda que desentranha dos suspeitos e
acusados o que lhes vai na alma, nesta maratona de roubalheiras.
Digamos, até faço uma delação psicanalítica. Sou profissional e
didático... Considero-me um técnico, um cientista da corrupção
nacional...
Eu estou hoje, senhor juiz, feliz no lugar da verdade — tenho o prazer
vingativo do dedo-duro. Para mim, que vivi mergulhado na mentira, falar a
verdade até me inebria, me sossega.
Já levei muito dinheiro vivo para uns canalhas durante um jantar
nordestino, dei-lhes a grana, entre moquecas e sarapatéis, que eles
repartiram ali na cara, enquanto se refocilavam em chopes e gargalhadas,
notas de dólares voltejando no ar, promessas de joias para as esposas
fascinadas com os belos maços de grana, prostitutas à espreita nos
bordéis próximos, ‘laranjas’ recebendo gorjetas magras, sorrindo com
bocas desdentadas, notas frias preenchidas com avidez, em suma, um
espetáculo sem ‘finesse’ que a mim escandaliza. Mas não sou um otário e
me resguardei — gravei tudo no meu celular iPhone 6, à disposição de
vossa meritíssima pessoa. Lá estão as bocas gotejantes de volúpia, os
dedos vorazes, um espetáculo educativo sobre a alma nacional.
Também, senhor juiz, delatei aquele caolhinho da Petrobras que conseguiu
amealhar R$ 97 milhões só de gorjeta, o que até me deixa um pouco
deslumbrado, porque é um marco histórico na corrupção do planeta. Sem
querer debochar de seu defeito, aqueles olhinhos piscavam, passando uma
fragilidade quase proposital que esconde uma alma de desbravador, um
ousado inventor de tretas e tramoias; dá até uma certa pena vê-lo
magrinho esmagado por um tesouro perdido, enlouquecendo de
arrependimento na celinha da polícia.
Delatei a vossa senhoria um ex-presidente da República que me tomou R$
20 milhões, mesmo debaixo de opróbrio em que vive há 25 anos. Eu não
aguentei e ousei lhe perguntei: ‘Por que você quer essa grana toda? Você
já tem tanto...’. Ele não respondeu, óbvio, mas eu ouvi sua resposta
muda: ‘Não roubo mais por necessidade; é prazer mesmo. Estou muito bem
de vida, tenho sete fazendas reais e sete imaginárias, mando em cidades
do Nordeste, mas sou viciado na adrenalina que me arde no sangue na hora
em que a mala de dólares voa em minha direção.’
Delatei o tesoureiro que me levou milhões em doações para o PT eleger o
Lula e a Dilma. Ele teve a cara dura ‘revolucionária’ de me exigir:
‘Precisamos de dinheiro para renovar nossa utopia, como disse nosso
Lula!’.<EP,1>‘Agora se você não soltar a grana logo, esquece o
contrato para superfaturar a nova refinaria.’ E riu debochado: ‘Afinal, o
petróleo é nosso!’. Soltei o tutu sim, senhor juiz, se não minha
empresa quebrava... E valeu a pena, apesar de a PF ter descoberto o
superfaturamento 20 vezes maior do que aquela mixaria de um milhão de
dólares que doei para a ‘revolução socialista’... Perdoe-me por rir
dessa piada vermelha...<EP,1><SW,-26>Eu mesmo levei dinheiro
vivo à sede do PT, eu, um homem refinado (creia-me, sr. juiz), tive de
me submeter a senhas, se não não entrava. O porteiro perguntou a mim:
‘Tulipa’? E eu respondi: ‘Caneco’. Pode essa humilhação depois dos
muitos milhões que entreguei àqueles moleques bolivarianos? E o ladrão
receptor, um boçal com estrelinha no peito, ainda foi grosso: ‘Cadê o
‘pixuleco’?’.
Delatei aquele ‘mão grande’ da Petrobras que investiu em arte, em
quadros e esculturas contemporâneas para lavar dinheiro, mas suas obras
de arte são medíocres. Esse burro poderia ao menos comprar coisas de
valor e não aquelas bobagens penduradas na parede — um Miró falso ao
lado de um Romero Britto. Roube, mas com ‘finesse’.
Eu delato, senhor juiz, porque me tiram do sério suas negações diante do
óbvio. Eles negam tudo, ninguém fez nada nunca e Brasília vira um palco
vazio sem atores. Isso desperta em mim os ‘impulsos mais primitivos’,
como disse nosso pioneiro Roberto Jefferson... E nada chega ao Lula,
esse sim, o grande culpado desse filme de horror... Será que ele tem
parte com o demônio para ficar tão blindado? Como disse um dos presos do
petrolão: ‘Que país é este?’.
Um país onde os presidentes do Congresso estão sendo investigados na
Lava-Jato? Aliás, eles nem ligam, sorriem, pois têm foro privilegiado no
STF...
Por isso vos digo: tenho orgulho de mim, senhor. Minha delação é
histórica. Eu topava uma propinazinha, tudo bem, mas isso, não. Eles
estão desmanchando o país. Um dia serei louvado por isso.
Assim, senhor juiz, permita-me citar o Padre Antônio Vieira: ‘Eles
furtam em todos os tempos de verbo: furtam, furtavam, furtaram,
furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse’.
Sem contar as carantonhas que nem precisam de acusações: Ricardo Pessoa
(o paletó apertado em sua grande barriga), o Edison Lobão (fascina-me a
vaidade desse feio), o sorriso tático do Marcelo Odebrecht, as caras
“revolucinárias” de Edinho Silva, Vaccari, aplaudidos de pé pelo ex-PT…
Tudo está na cara…
Por isso, senhor juiz, acho que presto um serviço relevante ao país e
lhe peço: não me ponha numa cela de 12 metros quadrados, varrendo o chão
e limpando a privada.
Anseio, meritíssimo, pela doce tornozeleira eletrônica que me comunicará
com os satélites no céu, o que me deixa emocionado, pela poesia que
isso encerra: meus malfeitos no espaço sideral perto do Cruzeiro do
Sul!”
EXTRAÍDADAROTA2014BLOGSPOT





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