Questionada se a perda de votações na Câmara dos Deputados pode passar a se reproduzir no Senado, presidente evita responder e diz que em democracias a aprovação de projetos 'é complexa' - ANDREI NETTO O ESTADÃO
A presidente Dilma Rousseff afirmou neste sábado, 11, em Milão, na Itália, que não há rebelião no Congresso Nacional, mas evitou responder se as derrotas sofridas na Câmara dos Deputados podem passar a acontecer agora também no Senado. Para exemplificar o que dizia, citou os Estados Unidos - cujo governo de Barack Obama não tem maioria em nenhuma das casa do Parlamento.
As dúvidas sobre a capacidade do governo de manter a articulação
política e garantir o apoio de sua base de sustentação aumentaram na
quarta-feira, quando os senadores contrariaram o interesse do Palácio do
Planalto e aprovaram a extensão da política de reajuste do salário
mínimo também às aposentadorias e pensões. O placar da votação, de 34
votos a favor, e 25 contra, despertou a preocupação no governo de que a
instabilidade que predomina na câmara possa agora se instalar em
definitivo no Senado.
Questionada sobre o assunto em Milão, onde visitou o estande brasileiro
da Exposição Universal, Dilma Rousseff diz não ver rebelião em sua base
de sustentação. "Eu não chamo de rebelião votação no congresso em que há
divergências", afirmou. A gente perde umas e ganha outras. Se a gente
for fazer um balanço, nós mais ganhamos do que perdemos. Eu não concordo
que haja uma rebelião."
Segundo a presidente, o governo também registrou vitórias importantes no
Congresso durante o período em que aconteceram as derrotas mais duras.
"Nós temos tido aprovação de muitas coisas importantes e temos tido
também desaprovações. Agora isso não significa que haja uma rebelião."
Sobre a hipótese de que a instabilidade passar a nortear a ação dos
senadores, Dilma não respondeu de maneira direta. "Em uma democracia se
espera que haja debate, não é? Não tem como em país nenhum no mundo você
achar que ganha todas no congresso, argumentou.
A presidente usou ainda o exemplo dos Estados Unidos para ilustrar seu
raciocínio. Detalhe: em Washington, a administração de Barack Obama não
tem a maioria nem no equivalente americana da Câmara dos Deputados, nem
no Senado. "Nos mais democráticos é que se torna mais complexa a
aprovação", disse Dilma, completando: "Nos mais democráticos, onde há
liberdade de opinião, onde há uma ampla manifestação de opiniões, como é
o caso dos Estados Unidos."
Na mesma entrevista, Dilma afirmou que "para não cair" "é preciso de
ajuda". A declaração foi feita depois de uma caminhada realizada em uma
rede instalada no estande do Brasil na Expo Milano, a Exposição
Universal que a delegação brasileira visitara instantes antes.
Dilma visitou o estande no início da manhã de hoje, no último evento
oficial previsto na sua turnê por Rússia e Itália realizada nesta
semana. No início da visita, a presidente assinou o livro dos visitantes
da Expo Milano - que tem como tema a alimentação - e aproveitou e
deixou uma mensagem: "Alimentar o mundo e o Brasil é algo que tem sido
nossa prioridade. Eliminar a fome e superar a pobreza foram as grandes
conquista do Brasil na última década", afirmou.
Então a presidente decidiu se aventurar e caminhar por uma rede elástica
que se estende do início ao fim do pavilhão, uma das grandes atrações
do estande brasileiro na Exposição Universal. Em um primeiro momento,
caminhando sozinha, Dilma teve dificuldades e balançou, sem cair. A
seguir foi apoiada primeiro por uma, e depois por duas pessoas,
conseguindo se estabilizar e concluir a caminhada pela rede, que definiu
como "lúdica" e "muito criativa".
Minutos depois, questionada pelo Estado sobre se o desequilíbrio que
enfrentou no início da caminhada, seguido de estabilização seria uma
metáfora de seu segundo governo, Dilma afirmou: "Não, querido, o meu
mandato é, eu diria, mais firme que essa rede".
A presidente seguiu explicando como fizera para caminhar, e então disse:
"Quando você está lá em cima, você inclina para um lado e imediatamente
vira para o outro, você fica balançando mesmo". Lembrada do fato de
que, ainda que balançando, não chegou a cair, Dilma respondeu: "Eu não
caí, mas a gente sempre para não cair precisa ser ajudada, né?".
As imagens da presidente caminhando na rede foram registradas por
cinegrafistas de empresas privadas de mídia e também pela NBR, a
emissora oficial do governo. O momento em que Dilma balança, porém, não
foi distribuído pela equipe que registrou as imagens. Segundo a equipe
de jornalistas oficiais, houve "ordens expressas" para que essas tomadas
não fossem colocadas à disposição da imprensa.
AUMENTO NO JUDICIÁRIO
O governo voltou a sinalizar em Milão que vai vetar o aumento de 53% a
78,5% nos salários dos servidores do Judiciário aprovado pelo Congresso.
A presidente Dilma Rousseff comentou o encontro que teve com o ministro
Ricardo Lewandowski na terça-feira em Porto, em Portugal, durante a
escala da delegação presidencial em viagem pela Europa. "De fato o
ministro Lewandowski pleiteia que não haja veto. No entanto nós estamos
avaliando porque é impossível o Brasil sustentar um reajuste daquelas
proporções", afirmou. "Nem em momentos de grande crescimento se consegue
garantir reajustes de 70%. Muito menos no momento em que o Brasil
precisa fazer um grande esforço para voltar a crescer."
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