por Zuenir Ventura O GLOBO
Não basta afirmar ‘Eu não caio’ ou que vai resistir com ‘unhas e dentes’ e que é ‘moleza’ sair dessa, quando a acusação é de falta de condições para governar
O que ainda se pergunta é se, com sua impetuosa entrevista à “Folha”, a
presidente Dilma livrou-se do inferno astral que a perseguia ou se ao
menos deixou o “volume morto” a que tinha sido relegada por Lula. Em
outras palavras, a estratégia iniciada ali melhorou ou piorou sua
situação? Por um lado, pode ter-lhe feito bem sair do imobilismo, tentar
fugir ao cerco que a considerava à beira do abismo e escapar do
noticiário que não fazia mais cerimônia em acolher o fantasma do
impeachment como uma possibilidade imediata. Com a popularidade em
vertiginosa queda, temerosa de que a Operação Lava-Jato subisse a rampa
depois das revelações do dono da UTC, derrotada num Congresso comandado
por dois aliados infiéis, às voltas para se defender junto ao TCU e ao
TSE, ela passou ao ataque, tentando desqualificar como golpismo as
enrascadas em que se meteu. A discussão para saber quem é de fato
golpista, se a oposição ou o governo, retoma o nível de polarização da
última campanha eleitoral.
Valeu a pena ter reagido dessa maneira, acirrando, em vez de serenar, os
ânimos da oposição, da qual acabou fazendo o jogo? A questão é que,
além das dificuldades jurídicas e institucionais impostas à presidente, o
seu governo enfrenta problemas que, como inflação e desemprego, não se
resolvem com bravatas verbais. Nos supermercados, não se fala mal das
“pedaladas fiscais”, mas do custo de vida. Não basta afirmar “Eu não
caio” ou que vai resistir com “unhas e dentes” e que é “moleza” sair
dessa, quando a acusação é de falta de condições para governar. Talvez
tivesse sido mais proveitoso politicamente contribuir com bom senso para
impedir que baixasse sobre o país esse clima de beligerância que lembra
outras indesejáveis épocas. Lula já dramatizou: “Não vou me matar, não
vou sair do país, eu vou para a rua. Se quiserem me derrubar, vão ter
que me derrubar na rua".
Já que ele puxou o assunto, sei que é superstição, mas não custa
lembrar: agosto está próximo e é conhecido como “mês do desgosto” pela
crença popular, que acredita ser esse período do ano símbolo de mau
agouro na política, a qual oferece alguns funestos exemplos. Foi no dia
24 de agosto de 1954 que Getúlio Vargas suicidou-se. Foi também num dia
25 de agosto, mas de 1961, que o então presidente Jânio Quadros
renunciou à presidência depois de apenas sete meses no cargo. No dia 22
de agosto de 1976, outro presidente, Juscelino Kubitschek, perdeu a vida
em um acidente de carro. De acordo com a numerologia, o significado do
mês 8 pode ser considerado desfavorável pela maioria das pessoas, já que
traz à tona tudo aquilo que foi semeado nos últimos meses — tudo de
ruim, evidentemente. Xô, crise!
EXTRAÍDADEROTA2014BLOGSPOT





0 comments:
Postar um comentário