Demétrio Magnoli FOLHA DE SÃO PAULO
A determinação da posição geográfica solicita duas coordenadas. A
decisão do impeachment, três: a vontade popular, o fato jurídico e um
consenso da elite política. A primeira existe desde as manifestações de
15 de março. A segunda esboçou-se mais tarde, com a impugnação das
"pedaladas fiscais" e, sob outra forma, com a delação premiada de
Ricardo Pessoa. A terceira desenha-se aos poucos, como fruto do colapso
do ajuste fiscal.
Dilma Rousseff pendurou o destino de seu governo no varal do sucesso de
Joaquim Levy. O varal caiu. De uma promessa de superávit de 1,2% do PIB,
não se fará mais que metade. A marcha batida do desemprego e da erosão
dos salários pulverizou a legitimidade social da presidente. O
empresariado queima as pontes com o Planalto. O PMDB ensaia saltar da
nau que faz água. O fracasso de Levy é um dobre de finados. Todas as
forças políticas reposicionam-se a partir desse diagnóstico, a começar
do próprio governo.
Nos EUA, pela primeira vez, Dilma bombardeou a Lava Jato, sugerindo que
os juízes, os procuradores e os delegados violam as leis da democracia,
torturando os acusados para obter delações. É um giro retórico tão
marcante quanto a reviravolta na política econômica. A presidente, que
se gabava de patrocinar o combate à corrupção, incorporou as fórmulas
discursivas dos porta-vozes informais de Lula na imprensa legítima e na
"imprensa" chapa-branca financiada com dinheiro público.
A tática, filha do desespero, obedece a uma lógica. Diante do surgimento
de fatos jurídicos que propiciam o impeachment, Dilma dá um passo à
frente e apresenta-se como aliada de todos os que temem as
investigações, especialmente Lula, Renan Calheiros e Eduardo Cunha.
Contudo, como o Brasil não é a Venezuela, ninguém acredita que uma
presidente desmoralizada tenha meios para cortar as pernas da
Procuradoria e do Judiciário. Nessas circunstâncias, o expediente
volta-se contra Dilma, expondo-a como parceira das máfias políticas que
colonizaram a República.
Paralelamente, Tarso Genro articula com os "movimentos sociais" e
setores do PSOL a formação de uma Frente de Esquerda. A iniciativa é uma
resposta à crise do lulopetismo e à anunciada ruptura da aliança entre
PT e PMDB. No cenário pós-Dilma, pretende funcionar como núcleo de
reagrupamento político e oferecer uma plataforma eleitoral ao
ex-presidente. Desde já, porém, ao reativar a campanha do "Fora, Levy!",
a Frente de Esquerda tende a descosturar a teia frágil que ainda
interliga o Planalto ao PT.
Lula, que ainda é um fator, perdeu o prumo e o rumo. Como biruta de
aeroporto, depois de apostar no ajuste fiscal, ameaçou chamar o
fantasmagórico "exército de Stedile", mas extinguiu a chama da revolta
no Congresso do PT e, na sequência, estimulou o movimento da Frente de
Esquerda, mas ensaiou uma reaproximação com o PMDB. Agora, conclama
Dilma a entrar em guerra aberta com a Lava Jato e "encostar a cabeça no
ombro do povo", senha óbvia para, sacrificando Levy, empreender um novo
giro de política econômica. Se a presidente der ouvidos ao antigo
mestre, engajando-se na aventura, precipitará o desenlace que tenta
evitar.
O impeachment não está sendo feito pelos partidos de oposição, mas pela
progressiva desconstrução da coalizão governista. O PSDB opera no
compasso da prudência, oscilando entre os horizontes de um governo
transitório de Michel Temer e do chamado a eleições presidenciais
antecipadas. Paradoxalmente, a interrupção do mandato de Dilma pode
revelar-se a saída menos desastrosa para Lula. Nessa hipótese, o
ex-presidente e seus áulicos esperneariam em público, difundindo a lenda
do "golpe das elites", mas festejariam à luz de velas. Sem as lições
dos três anos de apodrecimento derradeiro, a história ficaria
suficientemente inconclusa para oferecer uma chance de restauração ao
lulopetismo.
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