editoral despudorado do Estadão Paulo
Roberto de Almeida
Em
entrevista à Folha de S.Paulo, o ministro da Justiça afirmou: “É de um profundo
despudor democrático e de um incontido revanchismo eleitoral falar em
impeachment da presidente como têm falado alguns parlamentares da oposição”. E
acrescentou: “O desejo de golpe sob o manto da aparente legalidade é algo
reprovável do ponto de vista jurídico e ético”.
Preocupado
em mostrar serviço por pressão de seu próprio partido, Cardozo equivoca-se. As
condições para que a discussão sobre eventual afastamento da presidente da
República tenha entrado na agenda política não foram dadas pela oposição, mas
pela própria Dilma Rousseff e pela incompetência de seu governo, que têm sido
alvo de duros ataques até mesmo por parte do ex-presidente Lula. Foram as investigações
da Lava Jato e as delações premiadas, e não a oposição, que levantaram
suspeitas sobre a arrecadação de recursos na campanha reeleitoral de Dilma,
abrindo a possibilidade de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) vir a cassar-lhe
o mandato. É o Tribunal de Contas da União (TCU), e não a oposição, que acha
que as “pedaladas” fiscais de Dilma atentam contra a Lei de Responsabilidade
Fiscal e por isso ameaça reprovar as contas, o que abriria a possibilidade de,
neste caso, o Congresso cassar-lhe o mandato. Não havia nada parecido com tudo
isso quando, na oposição, o PT do ministro Cardozo sentiu-se no direito de
exigir “Fora FHC”, por despudor democrático.
As
condições políticas que estimulam a discussão do impeachment no âmbito do
Congresso foram criadas pela incompetência de Dilma e de seus conselheiros
políticos que, sob o efeito inebriante da vitória eleitoral em outubro, tiveram
a pretensão de passar por cima de seu principal aliado, o PMDB, e impor sua
vontade na eleição do novo presidente da Câmara dos Deputados. Deu no que se
vê.
Não é,
portanto, o “despudor democrático” da oposição que está colocando em risco o
mandato de Dilma Rousseff. As forças políticas que se opõem ao governo têm a
responsabilidade – enfatizada por Fernando Henrique – de apontar um rumo para o
País diante da crescente possibilidade de que Dilma seja legalmente impedida ou
até mesmo se afaste espontaneamente da Presidência da República.
Se isso
vier a ocorrer terá sido o resultado não de um golpe, como querem os defensores
da presidente, mas da aplicação das medidas constitucionais destinadas a
garantir a estabilidade das instituições republicanas, hoje ameaçadas – nunca é
demais repetir – pela corrupção apascentada por eminentes líderes do PT e
aliados, pela incompetência gerencial e pela desastrada ação política da chefe
do governo, que resultaram na ampla reprovação popular a seu desempenho.
É preciso
levar em conta ainda o fato de que o afastamento de Dilma pode representar, por
paradoxal que pareça, o melhor caminho para a sobrevivência, no prazo mais
curto, do projeto de poder do PT e da ambição de mando de seu principal líder.
Pois parece ser isso o que leva Lula, diante da improvável perspectiva de
recuperação da economia em tempo hábil para tornar possível a sua eleição em 2018,
a dar uma no cravo e outra na ferradura quando se refere a sua criatura,
sinalizando a intenção de descolar-se do desastre em que se transformou o
governo de sua pupila e sucessora.
Com o
impeachment ou a renúncia de Dilma, quaisquer que sejam os desdobramentos
constitucionais, Lula estaria livre para assumir o comando da oposição com
tempo suficiente para destilar o discurso de vendedor de ilusões que sempre
embalou sua carreira populista. Aí sim, se consumaria o verdadeiro despudor
democrático. (Estadão).
extraídadediplomatizzandoblogspot





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