editorial do Estadão
Recessão, estagnação e corrupção podem compor bem mais que um jogo de
rimas, pelo menos na economia brasileira. Cinco das maiores empresas
envolvidas no escândalo da Petrobrás pediram recuperação judicial, um
passo para renegociar dívidas de aproximadamente R$ 15 bilhões. Outras
companhias podem seguir esse primeiro grupo, formado por empreiteiras e
fornecedoras de equipamentos. Com dificuldades para se financiar e
marcadas direta ou indiretamente pela Operação Lava Jato, empresas
ligadas ao setor de petróleo e também a grandes projetos de engenharia
podem ser forçadas a reduzir sua atividade ou a se afastar de obras
vinculadas ao setor público. Mesmo sem esses problemas, 2015 seria um
ano de muitas dificuldades. O conserto das contas públicas e o combate à
inflação bastariam para reduzir severamente as perspectivas de
crescimento econômico. Os desdobramentos da pilhagem da Petrobrás tornam
esse quadro bem mais sombrio.
Saqueada, superendividada e com necessidade urgente de uma boa dose de
capital, a maior estatal brasileira é forçada a moderar seus planos de
investimento e a enfrentar uma fase de penosa convalescença. Suas
dificuldades financeiras já resultaram em problemas para companhias
fornecedoras. Sujeita a processos em tribunais estrangeiros,
desmoralizada e forçada a buscar financiamento chinês - fora, portanto,
dos mercados tradicionais - para atender a necessidades urgentes de
caixa, a Petrobrás estará impossibilitada, por algum tempo, de ser um
dos motores do crescimento brasileiro. Por sua importância, no entanto,
suas dificuldades se irradiam para uma porção de empresas ligadas às
suas atividades. Algumas dessas empresas são fornecedoras normais de
bens e serviços. Outras, em situação mais grave, são citadas nas
investigações sobre o amplo e prolongado assalto à Petrobrás.
Que fazer com elas? Deixá-las enfrentar todas as consequências de seus
malfeitos deveria ser a resposta normal, mesmo quando a quebra fosse
inevitável. Poupá-las é poupar principalmente seus controladores. Em
países desenvolvidos, grandes companhias envolvidas em lambanças de
ampla repercussão têm sido liquidadas. Mesmo nesses países, no entanto,
governos hesitaram, mais de uma vez, em permitir a quebra de
instituições financeiras poderosas, por causa de sua importância
sistêmica. Foi essa, pelo menos, a explicação mais comum. Um dos
objetivos da reforma financeira internacional discutida nos últimos anos
foi encontrar uma solução para esse problema. Isso eliminaria o status
especial dos bancos considerados "grandes demais para quebrar".
No Brasil, esse conceito tem sido aplicado, ultimamente, a grandes
construtoras e a companhias de peso. Sua quebra, argumenta-se,
produziria enormes danos à economia. Daí a proposta de preservação de
empresas suspeitas de participação no saque da Petrobrás - ou mesmo
claramente envolvidas nesse festival de lambanças. Acordos de leniência
seriam o caminho para oficializar o perdão e garantir a continuidade de
operações dessas empresas sem maiores solavancos. Já houve quem
propusesse, provavelmente sem corar, garantia de financiamento de bancos
oficiais a essas companhias.
É preciso, segundo se argumenta, preservar essas empresas para evitar o
risco de uma forte contração da atividade em setores importantes - como a
construção civil e a fabricação de equipamentos pesados. Seria uma
forma de prevenir a recessão ou, no mínimo, o agravamento da contração
econômica já apontada por muitos como inevitável. Afastar essas
companhias de grandes projetos elevaria o risco de crise e comprovaria
os efeitos recessivos da corrupção.
A melhor forma de prevenir esse risco é romper o domínio das maiores
empresas sobre os contratos de grandes obras e de grandes projetos. O
governo deve agir para promover essa mudança. Não pode haver, no Brasil,
companhia grande demais para quebrar ou para ficar fora dos maiores
empreendimentos - especialmente se se tratar de uma empresa envolvida em
corrupção e em pilhagem do patrimônio público.
EXTRAÍDADOBLOGROTA2014





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