João Pereira Coutinho Folha de São Paulo
Brasileiros nas ruas, protestando contra o governo —e eu, ao telefone,
como um jornalista profissional, procurando saber de amigos por que
motivo protestam os brasileiros.
Deixo ficar os paranoicos para próxima oportunidade: gente que me diz
que a) Dilma quer transformar o Brasil em ditadura ou b) as
manifestações são manobras da oposição com apoio internacional
(tradução: os Estados Unidos da América, claro). Ficarei apenas por
gente que vive fora de um asilo psiquiátrico, com acesso regular a
cuidados de saúde e alguma sensibilidade política para o fenômeno.
E então escuto os motivos do descontentamento geral. Na enquete
realizada pelo Instituto Datacoutinho, uma larga maioria fala de
corrupção endêmica como causa primeira da trepidação popular.
Depois, em porcentagens cada vez mais reduzidas, vem "o estado da
economia", categoria geral que inclui –por ordem decrescente– a inflação
elevada, o crescimento medíocre, o custo de vida, a falta de
investimento e o excesso de burocracia. Em penúltimo lugar, a saúde
pública e o ensino. Em último, e quase por sugestão minha, as
"desigualdades sociais".
Curioso: se eu recuasse no tempo –uns dez ou 20 anos– e realizasse a
mesma enquete, tenho certeza de que as "desigualdades sociais" estariam
no primeiro lugar da hierarquia. Exagero?
Não creio. Steven Quartz e Anette Asp escreveram um texto para o jornal
"The New York Times" que merece leitura atenta para entender um dos
fenômenos mais interessantes dos países afluentes ("Unequal, Yet
Happy").
Ponto prévio: os autores falam dos Estados Unidos e, admito, estender as
conclusões deles para o Brasil talvez seja abuso meu. Mas arrisco na
mesma: os Estados Unidos continuam a ser uma economia de grandes
desigualdades.
Porém, acrescentam os autores, as reações extremadas e violentas contra
as desigualdades que podíamos ver no passado praticamente desapareceram
da paisagem. Como explicar o fenômeno?
Os autores avançam com duas explicações complementares que eu subscrevo
sem hesitar: a partir do momento em que as necessidades básicas da
população estão garantidas (o que não acontecia em inícios do século
20), uma sociedade consumista tende a "diluir" a intolerância face à
desigualdade.
Explico melhor: quando a pobreza sofre redução extrema e a classe média
se alarga, alargam-se igualmente estilos de vida plurais e alternativos
onde o tamanho da casa do vizinho deixa de ser ofensivo aos olhos do
nosso modesto apartamento.
Melhor: a ostentação material, típica do subdesenvolvimento, ganha
contornos quase "kitsch", o supremo pecado de uma cultura que deseja ser
"cool". Às vezes, ter uma BMW não tem o mesmo apelo que usar uma
bicicleta: pedalar o bicho é uma forma de mostrar preocupações
"ambientais" e, sobretudo, um desprezo pelo reles materialismo que,
ironicamente, só é possível pela satisfação das necessidades que o reles
materialismo consegue.
Claro que, para um conhecedor de história das ideias políticas, nada
disso constitui novidade. O motor da história pode ser, como diziam Marx
e Engels, a eterna luta de classes entre opressores e oprimidos (não é,
mas isso são outros quinhentos).
O problema é que o marxismo falhou, e falhou brutalmente, não apenas ao
ser aplicado em países rurais e analfabetos como a Rússia de 1917 (um
crime que Lênin cometeu sobre Marx); muito menos pelo longo cortejo de
cadáveres que deixou no seu rastro.
Para a conversa que nos interessa, o marxismo falhou porque, ao
contrário do que Marx imaginava (e Lênin temia), os "oprimidos" não
desejavam derrubar os "opressores". Desejavam antes ser como eles –nos
gostos, nas posses, nos lazeres e nos prazeres. Para que destruir o
capitalismo quando só o capitalismo garante um pouco de animação para
todos?
Os brasileiros protestam. Mas protestam num país onde a pobreza começou a
ser vencida por Fernando Henrique Cardoso e onde a classe média
praticamente explodiu nos últimos dez anos.
Hoje, os brasileiros querem transparência política; economia saudável;
diminuição de um Estado perdulário; saúde e ensino de qualidade, e etc.
etc. Enfim, um caderno de exigências que poderia ser assinado por
qualquer democracia consolidada.
Pode ser uma triste consolação. Mas os protestos brasileiros já são protestos de Primeiro Mundo.
EXTRAIDADOBLOGROTA2014





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