Sandra Starling O Tempo
Já estava com o artigo pronto para a próxima semana: apenas resumia as críticas de vários analistas ao que ocorre atualmente depois que Dilma aplicou com afinco o velho bordão: “Não ganha eleição quem não vende ilusão”. Claro que o assunto não ficou velho, pois ainda não sabemos em que vai dar a guerra entre o ajuste fiscal de Joaquim Levy e as forças políticas que vão pagar mais caro pela aventura de crédito fácil para vendas subsidiadas. “A farra acabou”, afirmou Frei Betto em um de seus lúcidos comentários.
Resolvi, no entanto, mudar o assunto até porque agrupam-se rapidamente aqueles que gostariam de apenas ver acabar a festa promovida pelos governos petistas. Esse, o maior perigo. Urge criar um ambiente em que possam ser mantidos, pelo menos, os ganhos, ainda que pequenos, nos salários e que os empregos não saiam pelo ralo do que vai sobrar do petrolão, dos desvios encontrados pela operação Zelotes e das explicações – se vierem – dos que foram pegos no estouro das contas na Suíça do HSBC.
Uma coisa avulta agora claramente: não são apenas os políticos (alguns profissionais da política) que fazem a bandalheira. Muitos se locupletam porque aproveitam brechas das leis brasileiras para sonegar impostos – como os que vivem de desoneração de patrimônio para não pagar ICMS em seus verdadeiros negócios, cuja fachada é outra. Há os que fogem do Imposto de Renda travestindo suas rendas locatícias em “comodatos”, ou os que aplicam no exterior sem a devida comunicação à Receita Federal (evasão fiscal) – e as milhares de formas e fórmulas de elisão fiscal (brechas legais bem aproveitadas pelos espertalhões de toda ocasião).
NÃO SE PODE CALCULAR
Pobre país! Tão pobre – li algures – que Thomas Piketty, o economista que provou com as estatísticas de vários países a lei de ferro do capitalismo, segundo a qual, nesse tipo de sociedade, a desigualdade entre ricos e pobres é permanente, aqui não logrou poder fazer o cálculo porque nunca se tem certeza de que os ricos pagaram o devido Imposto de Renda. Sem falar, é claro, nos banqueiros que engordam suas contas por meio da total ausência de fiscalização de suas atividades pelo poder público, desde que Lula, num golpe de audácia jamais imaginado, logrou aprovar no Congresso Nacional, ainda em 2003, a Emenda Constitucional 40, que aboliu no artigo 163 a previsão desse tipo de fiscalização.
Acabou também com todas as amarras que poderiam ser apostas à livre atuação do sistema financeiro, previstas no artigo 192 da mesma Constituição.
Não se pode, porém, perder a esperança. Ainda restam movimentos sociais que não se deixaram cooptar, um novíssimo sindicalismo há de aparecer diante das mudanças da estrutura produtiva do país – como quer Márcio Porchmann, em texto escrito para a revista “Margem Esquerda”, 23, da Boitempo Editorial. Mercê, ainda, por que não sonhar, de tentativas de fusão de partidos de centro-esquerda, mesmo que antigos aliados da transação pactuada e realizada por Tancredo Neves? Repito: por que não sonhar?





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