editorial do Estadão
Embora as manifestações do último domingo contra a corrupção e a favor
do impeachment da presidente Dilma Rousseff tenham demonstrado, como era
previsto, mobilização popular inferior à do evento de 15 de março, 6 em
cada 10 brasileiros continuam a repudiar o governo petista e um número
maior ainda, 63%, deseja o impeachment da chefe do governo, de acordo
com pesquisa Datafolha divulgada no mesmo dia. O teor dessas
manifestações de desagrado em relação ao desempenho da presidente, que,
como as de março, se estenderam às principais cidades do País, sugere
algumas reflexões importantes sobre a crise política em que o País está
mergulhado.
A questão do impeachment ganha relevância quando se verifica que dois em
cada três brasileiros desejam o "fora Dilma". Uma sociedade
democraticamente organizada obedece a princípios definidos no arcabouço
legal que disciplina o convívio social. O impeachment do presidente da
República está previsto na Constituição, que no art. 85 define os crimes
de responsabilidade nos quais pode haver enquadramento. O item V desse
artigo, por exemplo, prevê o atentado à "probidade na administração".
Não basta, porém, a vontade da maioria da população para que o
presidente da República seja acusado, julgado e condenado a perder o
cargo. É necessária uma base legal cuja existência tem de ser aprovada
por dois terços da Câmara dos Deputados. O passo seguinte, no caso do
crime de responsabilidade, é o julgamento pelo Senado Federal.
Condenado, o presidente da República é destituído e assume em seu lugar o
vice-presidente. Esse é o procedimento legal, democrático, para o
impeachment do presidente da República. A deposição por qualquer outra
via é golpe, que a consciência democrática repudia.
Por se tratar, no entanto, de uma medida inquestionavelmente traumática,
mesmo que rigorosamente enquadrada nos preceitos e ritos legais, o
impeachment do presidente da República exige também, para garantia da
estabilidade institucional, claro apoio popular. O que significa que nem
sempre a existência de base legal é suficiente para que um processo de
impeachment progrida, já que o respaldo popular é complemento
indispensável para legitimar de fato a medida.
O apoio popular ao impeachment de Dilma Rousseff existe, por ampla
maioria, como comprovam as pesquisas de opinião pública. Mais difícil,
embora não impossível, é caracterizar a base legal para levar a
presidente da República a julgamento. Para tanto seria necessário, por
exemplo, comprovar que ela é responsável, no exercício de suas funções
constitucionais, por atentado à "probidade na administração". Não é uma
questão que se resolva nas ruas. Como prevê a Constituição, exige que os
deputados federais aceitem as provas apresentadas e os senadores levem a
presidente a julgamento. Trata-se, portanto, de uma questão
eminentemente política.
É aí que deveria entrar a oposição ao governo, no trabalho de levantar e
organizar as provas e evidências e de convencer a maioria dos
parlamentares nas duas Casas do Congresso de que o afastamento da
presidente é uma imposição da realidade política, econômica e social.
Seria uma tarefa facilitada tanto pela extrema fragilidade política de
um governo sem rumo como pelo apoio que pode ser obtido dos movimentos
não partidários envolvidos na organização das manifestações populares
contra o governo. A Operação Lava Jato e os julgamentos que dela
decorrerem certamente são as fontes mais promissoras das provas de
irregularidades e ilegalidades que comprometem, no mínimo por omissão, a
cúpula do governo com a pilhagem e o desmonte da maior estatal
brasileira.
Dessa perspectiva, faz todo sentido a decisão anunciada por
representantes dos vários movimentos responsáveis pela organização dos
protestos populares de dar um tempo nas manifestações de rua e
concentrar a atenção agora na busca de apoio para suas reivindicações no
Congresso Nacional. É esse o caminho, desde que possa haver
entendimento entre esses movimentos não partidários e a oposição
institucional, como opina em termos mais amplos o historiador José
Murilo de Carvalho em entrevista publicada na edição de domingo do
Estado.
EXTRAÍDADOBLOGROTA2014





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