O modo como Dilma Rousseff tem tratado o escândalo da Petrobrás - e
ficou evidente em seu lamentável discurso de posse - é a prova provada
de que vai uma enorme distância entre intenção e gesto, entre promessa e
atos, na reiterada determinação da chefe do governo de promover um
"combate sem tréguas", "doa a quem doer", contra a corrupção na
administração pública em geral e, em particular, na maior empresa
estatal brasileira.
O bom senso recomenda como precondição para a solução de qualquer
problema o reconhecimento de sua existência. Pois Dilma se recusa a
admitir que o maior escândalo de corrupção do País está entranhado na
empresa. Tudo se resume, discursou ela, a "uma empresa com 86 mil
empregados dedicados, honestos e sérios, que teve, lamentavelmente,
alguns servidores que não souberam honrá-la".
Dilma se recusa a admitir publicamente, como seria indispensável para se
acreditar na sinceridade de suas promessas de combate à corrupção, que a
farra da propina na estatal é uma armação de natureza essencial e
predominantemente política, destinada a carrear recursos para as
legendas partidárias, principalmente àquela a que pertence e a outras de
sua "base aliada". Prefere botar a culpa em "alguns servidores",
escamoteando o fato de que esses "servidores" eram, todos, como a
Operação Lava Jato está demonstrando, agentes políticos a serviço de
interesses partidários.
A chefe do governo não perde a oportunidade de afirmar que "estamos
apurando com rigor" os malfeitos na Petrobrás, como se ela, a
presidente, fosse a mandante das investigações em curso. Ocorre que, no
que dependeu verdadeiramente de sua influência e de sua vontade política
- a investigação do escândalo pela Comissão Parlamentar Mista de
Inquérito (CPMI) -, nada foi feito. Agora, as lideranças do governo nas
duas casas do Congresso estão empenhadas em impedir que nova CPI da
Petrobrás seja instalada no início da próxima legislatura.
É claro que essa nova CPI servirá aos interesses da oposição. Mas
servirá, principalmente, aos interesses maiores da sociedade brasileira.
A Nação tem o direito de ver essa questão tratada com a maior
transparência possível, e atender a essa exigência é uma obrigação
indeclinável do Executivo e de sua base de apoio parlamentar. Se não,
como acreditar em Dilma quando discursa: "O Brasil sabe que jamais
compactuei com qualquer ilícito ou malfeito"?
Dilma prefere desviar a atenção para a necessidade de defender a
Petrobrás dos "predadores internos" e dos "inimigos externos". Tenta
lançar a responsabilidade pelo escândalo nas costas dos que tiveram
interesses contrariados pela adoção do sistema de partilha na exploração
do pré-sal, "cuja exploração, que já é realidade, vai tornar o Brasil
um dos maiores produtores de petróleo do mundo". Promessa, aliás, que
Lula fez há mais de sete anos.
Ninguém duvida de que a Petrobrás tem "inimigos" interessados em tirar
toda sorte de proveitos de sua condição de maior empresa brasileira. A
farra da propina, na verdade, confirma isso. E ninguém tirou tanto
proveito do prestígio e do potencial de produção da estatal em benefício
do desenvolvimento econômico e social do País quanto aqueles que se
adonaram da empresa há 12 anos com uma volúpia de desfrute que acabou
dando no que se vê.
Dilma acha que estará promovendo "um grande pacto nacional contra a
corrupção" ao encaminhar ao Congresso um "pacote" composto de cinco
medidas legislativas. É uma forma sutil de transferir para os
parlamentares uma responsabilidade que, sabe-se, eles terão muita
dificuldade ou nenhuma vontade de assumir.
Não é com discursos e a tentativa maliciosa de colocar a tranca depois
da porta arrombada que o problema da Petrobrás será resolvido. Muito
menos o da praga do assalto ao erário. Para Dilma, "a corrupção ofende e
humilha os trabalhadores, os empresários e os brasileiros honestos e de
bem". Tem toda razão. Mas também ofendem a todos as armações para
livrar das penas da lei a elite do poder mergulhada até o pescoço nesse
mar de lama.
fonte rota2014





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