Por LÚCIO FLÁVIO PINTO
Na véspera da posse de Jânio Quadros como presidente da república, em
janeiro de 1961, dizia-se que ele faria um discurso arrasador contra
Juscelino Kubitscheck, que lhe transmitiria o cargo. Indagado sobre como
reagiria a ouvir insultos de corpo presidente do seu oponente, JK foi
direto: “Meto-lhe a mão na cara”.
Mas não houve o escândalo. Jânio deixou as críticas ferozes – e, em
geral, inconsistentes – para depois da posse. Juscelino soube delas a
uma distância civilizada. Civilidade é o mínimo que se deve exigir de
homens públicos, mesmo – e, sobretudo – em situações difíceis, delicadas
ou mesmo explosivas.
O general João Figueiredo, o último presidente do regime militar, não
passou a faixa a José Sarney, o primeiro da Nova República. Saiu pela
porta dos fundos – do palácio e da história, como queria e mereceu.
Talvez não controlasse o seu ânimo explosivo e tratasse por traidor o
novo presidente, que pulou de barco, passou para a oposição, foi vice de
Tancredo Neves e o substituiu quando o titular adoeceu e morreu.
O poder é público e não privado, ao menos em tese e na forma da lei.
Os que o ocupam recebem delegação do povo, direta ou indiretamente.
Deviam ter respeito, compostura e algum traço de solenidade, em dose
suficiente para superar seus impulsos pessoais deletérios.
Não sei se algum ministro da Fazenda deixou de entregar o cargo ao
sucessor, como fez ontem Guido Mantega com Joaquim Levy. Logo Mantega, o
cidadão que por mais tempo dirigiu esse ministério, o mais importante
da república, desde sempre. Controla a vasta engrenagem que movimenta o
dinheiro. Quem comanda a pasta deve atender a certos requisitos, que
incluem a ponderação e o equilíbrio.
Levy é exatamente o oposto de Mantega, que, por ter sido nada mais do
que um braço de Dilma Rousseff, também significa que é o oposto da
presidente num ministério que desafia os decifradores. Se Levy e seu
par, Rubens Barbosa, do Planejamento, discrepando completamente do que
foi a política econômica nos últimos quatro anos, estão no ministério, é
porque essa política – se não fracassou – não deu certo, muito menos
levou ao esperado e ao declarado como resultado, graças a tantas
maquiagens e mágicas escriturais e manobras pedestres.
Os dois ministros estranhos ao ninho disseram logo a que vieram para
desentocar os adversários e inimigos, chamando-os para o debate aberto. É
uma situação inusitada no âmbito de um mesmo governo. A idiossincrasia
se acentuou com a ausência do até então superministro. Se ele discorda
do substituto, faria bem à sua função e ao país dizendo-o claramente,
sem precisar descer às ameaças de pura chicana de Jânio Quadros. Podia
causar certo constrangimento, mas as coisas estariam bem postas à mesa
para a sociedade apreciar e o próprio governo decidir, corrigindo rumos
ou confirmando a direção assumida.
A ausência de Guido Mântega mostra que todos os problemas decorrentes
de algumas das más políticas que patrocinou ou avalizou serão agravados
pelas intrigas e mesquinharias palacianas. É provável que sua atitude
tenha sido um código para os subterrâneos do poder. O governo começa
desgovernado.
fonte tribunadaimprensaonline





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