VOTO AÉCIO NEVES 45
Ninguém chamou o oponente de mentiroso ou de leviano. Algumas
intervenções foram ácidas. Mas não se ouviu nenhum xingamento ou ofensa
pessoal. No terceiro debate presidencial do segundo turno, Dilma e Aécio priorizaram, finalmente, as ideias.
Mencionaram-se temas como educação, saúde, segurança, infraestrutura,
economia e programas sociais. O diabo é que as ideias revelaram-se tão
profundamente rasas que poderiam ser atravessadas por uma formiga —com
água pelas canelas.
Num confronto precedido
de muito ensaio, não houve nenhum lance capaz de virar votos alheios.
No fundo, as grandes poses de Aécio e Dilma não foram direcionadas aos
eleitores que já lhes são fieis. Os candidatos ajeitaram seus mais belos
penteados, puseram suas mais elegantes roupas e armaram-se de suas
melhores virtudes para o julgamento dos indecisos —6% do eleitorado. Ou
cerca de 8 milhões de pessoas.
Considerando-se o contexto atual, em que sete de cada dez brasileiros
manifestam o desejo de mudança, o arsenal retórico de Aécio pode soar
mais sedutor que o de Dilma. Mas a presidente está longe de ser uma
adversária negligenciável. Às voltas com indicadores econômicos
esquálidos e um escândalo de corrupção portentoso, ela arrasta 49% das
intenções de voto nas pesquisas. Segura um empate técnico com Aécio, a
quem o Datafolha e o Ibope atribuem 51%.
Quer dizer: mesmo com todo o temor de que a economia exploda e a delação
da Petrobras confirme que o petismo e seus aliados produziram um novo
mensalão hipertrofiado… mesmo com tudo isso, metade do eleitorado ainda
se dispõe a votar em Dilma. A pergunta a ser feita é: quantos indecisos a
presidente conseguirá atrair para o seu cesto? Ou, por outra: Dilma
conseguirá impedir que Aécio engorde seu percentual de votos?
A serviço do petismo, o marqueteiro João Santana já demonstrou que, com
boa propaganda, pode-se vender até ovo sem casca. Mas esse eleitor que
ainda faz cara de interrogação diante da urna talvez tenha dificuldade
para comprar a tese segundo a qual Dilma será a mudança de si mesma. É
nisso que se apegou Aécio ao apresentar-se no debate como o candidato
capaz de “mudar de verdade o Brasil, não apenas no slogan”.
Aécio logrou levar sua rival às cordas ao várias vezes. Como na hora em
que perguntou sobre inflação. “A inflação não está descontrolada como
quer vocês”, defendeu-se Dilma, tropeçando no português. “Vocês jogam no
quanto pior, melhor. Eu tenho certeza que a inflação está sob controle.
Ela está inteiramente controlada. E isto é inequívoco.” A necessidade
de defender a própria fama de supergerente impede Dilma de enxergar que a
autocrítica pode ser menos danosa do que a falta de nexo.
Livre de amarras, Aécio sapateou: “A verdade, candidata, é que as pessoas estão apavoradas. O jornal ‘O Globo’
desse final de semana mostra as pessoas no supermercado enchendo os
carrinhos, fazendo de novo a compra do mês, que existia há quinze anos
atrás.”
Olhar fixo na câmera, Aécio tentou faturar com o infortúnio de uma
inflação que teima em permanecer nos arredores de 6,5%, teto da meta
oficial do governo. “A inflação está aí, é importante que você saiba.
Para a presidente da República, não existe inflação, ela está sob
controle. Inequívoco, segundo ela. Para mim não está!”
Dilma defendeu-se como foi possível: “Candidato, em alguns momentos você
tem flutuações, mas os preços voltam para o patamar que devem ficar.”
Ela voltou a esfregar na cara do adversário indicadores do ciclo FHC,
encerrado em 2002. “Quando vocês entregaram o governo, a inflação estava
em 12,5%. No ano anterior, estava em 7,7%.”
No afã de grudar FHC em Aécio, Dilma esquece que o Brasil de 12 anos
atrás saía de uma superinflação que chegou a 83% ao mês. Com a mente
nublada, a presidente por vezes exagerou. Ao recordar que sob FHC 11,5
milhões de trabalhadores perderam o emprego, Dilma provocou: “O meu
governo, candidato, ao contrário do seu, criou 5,6 milhões de empregos.”
Aécio ironizou: “A candidata afirma que seu governo gerou mais emprego
do que o meu. Eu não governei o país, candidata, pelo menos ainda.” Na
sequência, enumerou os países da América Latina que registram
crescimento econômico mais alto, inflação mais baixa e taxas de
desemprego próximas das observadas no Brasil: Peru, Chile e México.
De resto, para o bem ou para o mal, Aécio não exibe na atual disputa a mesmaFHCfobia que
atormentava José Serra e Geraldo Alckmin, os tucanos que o precederam
no posto de adversários do PT. Ao assumir o legado tucano, Aécio
enfraqueceu o veneno de Dilma. Ela o desafiou a não “lavar as mãos” para
o passado de sua tribo. E o tucano respondeu:
“Candidata, eu tenho um orgulho enorme de ter podido participar de um
momento transformador da vida nacional, quando nós aprovamos o Plano
Real, tiramos a inflação das costas dos brasileiros. Contra o voto do
seu partido. E tenho certeza que a senhora assume essa responsabilidade…
Votamos a Lei de Responsabilidade Fiscal, que reordenou a vida dos
entes públicos brasileiros. Contra a posição do seu partido… Iniciamos
os programas de transferência de renda, depois ampliados, candidata,
pelo seu partido.”
Outro tema que se revelou duro de roer para Dilma foi a petro-ladroagem.
Aécio degustou defronte das câmeras da tevê Record uma declaração que
sua antagonista fizera na véspera:
“Candidata, eu cobrei durante todos esses últimos debates uma posição da
senhora em relação a Petrobras. Não obtive. Mas agora eu quero aqui
fazer um reconhecimento de público: a senhora ontem reconheceu que houve
desvios na Petrobras. [...] Aquele que é denunciado, para recebimento
dessa propina, o tesoureiro [do PT] João Vaccari Neto, continuará também
como membro do Conselho de Itaipu? A senhora confia nele, candidata?”
Dilma fugiu da resposta sobre Vaccari. Ficou subentendido que manterá no
Conselho da Itaipu Binacional o personagem que o delator Paulo Roberto
Costa identificou como operador do PT no esquema urdido para morder
propinas na Petrobras.
A presidente defendeu-se atacando: “Candidato, o senhor confia em todos
aqueles que, segundo as mesmas fontes que acusam o Vaccari, dizem que o
seu partido, o presidente dele [Sérgio Guerra], que lamentavelmente está
morto, recebeu recursos para acabar com a CPI? O senhor acredita,
candidato?”
Dilma prosseguiu: “Eu queria lembrar o senhor de uma coisa: da última
vez que um delator [da empresa Siemens] denunciou pessoas do seu partido
no caso do metrô e dos trens [em São Paulo], o senhor disse que não ia
confiar na palavra de um delator. Eu sou diferente, candidato. Eu
acredito no seguinte, eu sei que há indícios de desvio de dinheiro.”
Aécio não se deu por achado: “Senhora candidata, se eu entendi bem,
houve aqui um recuo, a senhora já não acha mais, como a imprensa
notificou, que houve desvios, a senhora acha que houve indícios de
desvios. E não respondeu a minha pergunta. Porque, se a senhora acha que
houve desvios, a senhora obviamente está acreditando na palavra do
delator, que me parece consistente. E eu lhe pergunto: a senhora confia
no tesoureiro do seu partido?”
Nas palavras de Dilma, Aécio deveria cumprimentá-la não por ter
reconhecido os desvios, mas por ter declarado que “iria investigar assim
que o Ministério Público e o Supremo Tribunal Federal divulgassem as
suas conclusões.”
Aécio foi ao ponto: “A senhora foi presidente do Conselho de
Administração durante um longo tempo. Como essas coisas poderiam
acontecer de uma forma tão sistêmica, candidata? Isso que é grave, e
isso que precisa mudar no Brasil, nós precisamos profissionalizar as
nossas empresas, tirá-las da agenda política.”
O candidato tucano afirmou também que a Petrobras migrou das páginas
econômicas para o noticiário policial como “consequência da forma como
as pessoas são nomeadas” para compor a diretoria da Petrobras. “As
pessoas estão sendo nomeadas para prestar serviços seja para o partido
da presidente, ou do presidente [Lula], ou para partidos da base. É isso
que, infelizmente, vem acontecendo.”
Aécio prometeu profissionalizar a gestão de estatais como a Petrobras.
Disse que vai retirar do balcão também os cargos de direção nos bancos
públicos. Beleza. Faltou explicar como fará para saciar a fome dos
partidos por poltronas e verbas. Chama-se Benito Gama um dos aliados de
Aécio. Preside o PTB federal. Acaba de ser eleito deputado federal pela
Bahia. Sob Dilma, Benito ocupou um assento na diretoria do Banco do
Brasil. A despeito disso, bandeou-se para a coligação de Aécio. E não há
de ter feito isso por patriotismo.
A exemplo do que fizera noutras oportunidades, Dilma levou ao ventilador
os escândalos da Era FHC: o caso da pasta rosa, a encrenca do Sivam, a
compra de votos na aprovação da emenda da reeleição… Aécio insinuou que o
petismo teve 12 anos para reabrir os casos. Se não o fez foi porque não
havia culpados. Dilma reiterou que o engavetamento de investigações é
uma marca dos governos tucanos.
O problema é que, nessa gincana de lama, Dilma se defende jogando na
lata de lixo a superioridade moral da qual um dia o PT se jactou. No
mais, o óleo quente da Petrobras queima mais do que os escândalos
enterrados vivos no passado: “Montou-se, segundo a Polícia Federal, uma
organização criminosa na Petrobras”, subiu o tom Aécio.
“E quero dar à senhora, mais uma vez, a oportunidade: o tesoureiro do
seu partido, hoje ocupando um cargo em Itaipu, nomeado quando a senhora
era ministra das Minas e Energia, ele tem a sua confiança para continuar
ocupando esse cargo? Não lhe preocupa o que possa estar acontecendo em
Itaipu e, eventualmente, em outras empresas públicas?” Numa eleição
apertada, esse tipo de interrogação pode custar votos decisivos.
Sobretudo quando ficam sem resposta.
FONTE ROTA2014





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