Amuleto de Aécio no primeiro turno, o ex-presidente do Banco Central não
esconde o desconforto de ser apresentado como vilão por Dilma Rousseff
(PT) no segundo turno. Em entrevista ao GLOBO, ele admite ter sido pego
de surpresa sem uma estratégia para deslocar o debate econômico do
passado, como insistem os petistas, para o presente, como querem os
tucanos. Para encarnar o antagonista de Arminio, o PT escalou o ministro
da Casa Civil, Aloizio Mercadante. Procurado pelo GLOBO na semana
passada, o ministro ainda não abriu espaço em sua agenda para uma
entrevista.
Como vê a estratégia do PT de comparar indicadores econômicos dos governos Lula e Dilma com os de FH?
Quem está concorrendo não é o Lula, do (ex-ministro da Fazenda) Antonio
Palocci. É a Dilma, com esse modelo, essa equipe e esses resultados que
estão aí. Lula já foi. As perspectivas são tão ruins, que tentam jogar a
discussão para o que aconteceu há 15 anos, em outras circunstâncias.
Como o PSDB vai responder?
Não temos outra estratégia para contrapor que não seja a de discutir o
que se pretende fazer com o Brasil de hoje, já que não temos máquina do
tempo para voltar atrás. Tenho a impressão de que, com o tempo, as
pessoas vão entender que aquilo era outra situação, gravíssima, herdada
da década de 1980. Eu não sou daqueles que acha que está tudo errado
hoje, mas tem muita coisa errada. Temos que insistir no que é bom e
mudar o que é ruim. O tema para mim é mudança.
A comparação não faz sentido?
Espera-se que cada governo seja melhor do que o outro. Quando se
constrói uma parede, colocando um tijolo sobre o outro, dizer que o
quarto tijolo é mais baixo que o décimo é óbvio. Claro que é. Ninguém
constrói uma parede para baixo. O ponto hoje é o país estar vivendo uma
crise de incerteza enorme. Todos os índices de confiança estão lá
embaixo. O investimento vem caindo, apesar de todos os programas do
governo. Isso mostra que tem coisa errada no modelo.
Sente-se no alvo do PT?
E não é para se sentir? O ataque que o PT está fazendo demonstra uma
fraqueza incrível. Eu não me tenho em tão alta conta, como eles
aparentemente têm. Claramente estão querendo desviar o foco do que está
acontecendo hoje.
Sua proposta de revisão do papel dos bancos públicos é das mais criticadas pelo PT. Como seria o BNDES de Aécio?
Não vamos acabar com o BNDES, que é um instrumento importante. A
resposta à crise em 2009, anticíclica, foi adequada. Só que a crise
passou. As coisas estão dando errado por outras razões, e eles continuam
com o mesmo remédio. O BNDES tem que ter critério social, por ter
recursos subsidiados hoje maiores do que o que se gasta com o Bolsa
Família. Tem que ter transparência para permitir avaliação. E os
subsídios têm que estar no orçamento. Hoje, não há meta para o tamanho
do banco, mas, com critério, sem emprestar para Petrobras e grandes
empresas que têm acesso a crédito privado, o volume dos desembolsos deve
diminuir aos poucos.
Seu plano de trazer a inflação para o centro da meta de 4,5% e reduzi-la para 3% é juro alto, como diz Dilma?
O que temos dito é que vamos fazer isso em dois ou três anos, com uma
combinação muito melhor das ferramentas de política econômica, que não
são só juros, para liberar o lado da oferta da economia. A oferta está
travada porque não tem investimento. Vamos trabalhar para destravar a
oferta também.
Esses outros componentes faltaram na política econômica de FH?
Não, de jeito nenhum. É o oposto. Vocês estão acreditando muito no que
eles (do PT) contam. Fernando Henrique fez mudanças de grande
importância, como o papel do Estado. Era preciso passar uma série de
coisas para o setor privado, sob supervisão do Estado. Começou lá o foco
maior em Educação e Saúde. Se olharmos os gastos sociais, o crescimento
foi mais ou menos igual nos governos Itamar, FH, Lula e Dilma: cerca de
1,5% do PIB. Só estou mostrando que as coisas fora de seu contexto têm
pouco significado. É um debate pobre.
A política econômica de FH foi irrepreensível? O que faria de diferente num governo Aécio?
FH pegou um país com hiperinflação, moratória, sistema bancário
parasita, buraco fiscal, crise das finanças estaduais. De um quadro
desolador, fez um excelente trabalho. Temos que olhar o conjunto da obra
sob as circunstâncias em que aconteceu. Qualquer um que olhe para trás
com um mínimo de bom senso faria algo diferente, mas isso é engenharia
de obra feita. Hoje, as circunstâncias são totalmente diferentes. Não dá
para fazer essa comparação. Se há um paciente com apendicite e outro
com enxaqueca, vamos abrir a barriga dos dois? Não faz sentido. O
eleitor precisa ver as propostas e as credenciais das pessoas hoje e
definir se têm competência ou não.
FONTE ROTA2014
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