Marco Antonio Villa: O Globo
Não há qualquer dúvida de que Michel Temer é o novo presidente da
República. O Senado vai receber o processo e aprovar o impeachment de
Dilma Rousseff. A interinidade deve ser breve — inferior aos 180 dias
constitucionais. O projeto criminoso de poder e seus asseclas foram
derrotados.
A história — e não é a primeira vez — traçou um caminho surpreendente.
Apesar do desastre do primeiro governo, Dilma conseguiu ser reeleita na
eleição mais suja da República. Imaginava-se que faria um governo
cinzento. E que Lula deveria ter um papel mais ativo, preparando o
caminho para retornar à Presidência em 2018, ser reeleito em 2022 e
eleger um poste em 2026. A pouca combatividade da oposição, a inércia
das entidades empresariais, as benesses obtidas pelo grande capital e o
estabelecimento de relações nada republicanas com o Congresso Nacional e
as Cortes superiores de Brasília davam ao petismo um protagonismo e uma
força desproporcional à realidade.
Quando o pedido de impeachment deu entrada na Câmara — em outubro de
2015 —, poucos acreditavam que seria apreciado. Outros já tinham sido
rejeitados. Pouco depois, o STF decidiu, equivocadamente, que caberia
monocraticamente ao presidente da Câmara a decisão de receber o pedido.
Falou-se que seria rejeitado por Eduardo Cunha. Porém, a 2 de dezembro,
acabou sendo recebido. Seis dias depois, foi eleita a Comissão Especial
por 272 votos a 199, com uma composição independente do Palácio do
Planalto. Mais uma vez, o STF interferiu inconstitucionalmente,
obrigando a Câmara a anular a votação e criar uma comissão “eleita”
pelos líderes. Considerou-se uma vitória, pois os partidos da base
governamental eram maioria.
O recesso parlamentar deu ao governo uma aparente sobrevida. Ficou na
aparência. O agravamento da crise econômica — o ano fechou com a queda
do PIB em -3,8% —, as investigações da Lava-Jato e a participação da
sociedade civil com as manifestações de rua — quatro em 2015 — e a
fantástica mobilização das redes sociais foram
paulatinamente deslocando a balança para os adversários do petismo,
mesmo quando os partidos oposicionistas ainda patinavam no enfrentamento
do projeto criminoso de poder.
O ano legislativo de 2016 começou sem que estivesse claro qual o rito
que deveria ser seguido na Câmara, pois o STF tinha tomado uma decisão
pouco clara e, pior, invadindo a esfera do Legislativo. Após os
esclarecimentos, o caminho ficou aberto. Mas o fato determinante do
processo foram as grandes manifestações de 13 de março, especialmente a
de São Paulo, a maior da história do Brasil. Nesse momento, as ruas,
pela primeira vez, empurraram o Parlamento, deixando de ser coadjuvantes
para serem protagonistas.
O PMDB foi se afastando do governo — a 12 de março declarou-se
independente. A resposta do Planalto foi um suicídio político: a
nomeação de Lula para chefia da Casa Civil.
Uma demonstração de fraqueza travestida de uma grande jogada política.
Um golpe de Estado, dando a Presidência, de fato, a um procurado da
Justiça. A suspensão da nomeação e a divulgação dos áudios foram fatais.
Desnudaram as razões da nomeação e as conversas de ministros e
dirigentes petistas. Apresentaram um governo de cafajestes e celerados.
Ficaram ainda mais isolados. E novamente as ruas deram resposta enérgica
à manobra golpista.
A 17 de março foi constituída a Comissão Processante. Para evitar
questionamentos jurídicos, foi seguido estritamente o rito determinado
pelo STF. Diferentemente de 1992, desta vez houve amplo direito de
defesa. A solidão do Planalto ficou maior quando o PMDB rompeu com o
governo. De nada adiantou a presença constante de Lula em Brasília e a
transformação de um quarto de hotel em gabinete presidencial — triste
momento que aproximou o Brasil de uma república bananeira.
A Comissão Processante teve seus trabalhos conduzidos com muita
propriedade e equilíbrio pelo presidente Rogério Rosso, e o parecer do
relator Jovair Arantes não deixou pedra sobre pedra — e a 11 de abril
foi aprovado por ampla maioria. As respostas do governo na comissão, na
Câmara e na sociedade foram desastrosas. Chamar de golpe o que está
previsto na Constituição foi um desastre. A defesa feita pela AGU foi
patética. Os atos no Planalto com os “movimentos sociais” afastaram
ainda mais o governo de parlamentares que estavam indecisos. E, para
piorar, Dilma pediu a intervenção de organismos internacionais, caso de
crime de lesa-pátria.
A votação de 17 de abril foi histórica. De nada adiantaram as transações
criminosas de Lula tentando comprar parlamentares. O quorum
constitucional foi suplantado. E a admissibilidade do processo,
aprovada. O PT — que funciona mais como uma organização criminosa do que
como partido político, basta recordar as inúmeras condenações judiciais
— tentou — e ainda tenta — desqualificar a decisão. Criticou o “nível”
dos deputados — como se a média dos parlamentares, desde 1826, quando o
Parlamento foi aberto, fosse muito distinta; além do que teve
sustentação congressual durante 13 anos —, ameaçou o país com guerra
civil, incentivou a desmoralização das instituições e colocou em risco a
paz pública.
Temer não deve esquecer que chegou à Presidência graças à mobilização
das ruas. Vai ter de organizar um ministério competente, enfrentar os
graves problemas econômicos, melhorar a qualidade do gasto público, não
compactuar com a corrupção, despetizar o Estado e levar o país às
eleições de 2018. Não será fácil. Mas muito mais difícil foi o povo
derrotar a quadrilha petista e seu chefe, Lula.
EXTRAÍDADEROTA2014BLOGSPOT





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