por Ruy Castro Folha de São Paulo
Pesquisa do Conselho de Arquitetura e Urbanismo no "Globo" revelou que
46% da população brasileira moram em casas construídas por eles
próprios. Não porque sejam pedreiros diletantes, dados a empilhar
tijolos e aplicar-lhes massa nos fins de semana, como quem constrói um
forno de pizza ou sauna no quintal. Mas porque, da pobreza ao
relaxamento oficial, tudo no Brasil favorece a que se levante um barraco
no primeiro terreno baldio que se encontre, e não necessariamente na
favela.
Para constatar isto, basta uma volta de carro por qualquer cidade
brasileira. A quantidade de casas de tijolo aparente, com um ou mais
andares, salta aos olhos.
O chocante é descobrir que essas casas toscas abrigam quase metade da
população. Em 200 milhões de habitantes, serão dezenas de milhões de
moradias feitas sem um engenheiro, um arquiteto ou mesmo um mestre de
obras, ao largo da rede de água e de esgoto, a salvo do IPTU e
inexistentes para o correio.
Mas todas estão ligadas à eletricidade por um gatilho. Segundo outra
pesquisa, esta do IBGE, 97% desses lares têm televisão e geladeira, 58%
têm máquina de lavar e 49%, computador. A reportagem do "Globo" entrou
na palafita de uma pescadora chamada Jane, no Recife. Trata-se de um
cômodo de cinco metros quadrados, sem banheiro e sem fogão –a comida é
feita numa lata cheia de carvão. Mas Jane tem algo indispensável: uma TV
de LED, de 42 polegadas, comprada a prestações e ainda não de todo
quitada.
Sob a acepção (correta) de que Jane tem tanto direito a uma TV de luxo
quanto eu ou você, o modelito econômico costurado nos últimos anos
garantiu que ela adquirisse essa TV. Infelizmente, não lhe garantiu uma
vida nem em sombra parecida com a que ela vê na telona.
E que, em breve, não verá mais, porque vão lhe tomar a TV.
extraídaderota2014blogspot





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