por Samuel Pessôa Folha de São Paulo
Antonio Prata escreveu que não entende as pessoas baterem panela contra o petrolão e não baterem contra o trensalão paulista. Argumentei
que o tratamento assimétrico é natural em razão das enormes
responsabilidades do PT, há 12 anos e meio no poder, e de o conjunto de
provas do petrolão ser muito mais sólido.
Evidentemente o PT não é responsável por todos os nossos problemas. Há
algumas semanas publiquei artigo no caderno "Ilustríssima" ("O ajuste
inevitável", com Marcos Lisboa e Mansueto Almeida) exatamente sobre
nossos problemas fiscais estruturais.
De qualquer forma, há de reconhecer que a difícil situação econômica que
vivemos, só comparável à recessão do Plano Collor, é responsabilidade
direta de escolhas feitas pela equipe econômica de 2009 a 2014.
Já a assimetria do conjunto probatório dos escândalos petistas, muito
mais farto em comparação aos casos tucanos, deve-se, segundo Prata, à
forma assimétrica com que as instituições de controle do Estado,
Ministério Público e Polícia Federal, investigam os escândalos petistas
em comparação aos tucanos.
Penso que não há esse tratamento assimétrico. Impossível saber quem tem
razão. Só o olhar histórico permitirá resolver a questão.
A leitura de Prata, de que há viés contra o PT na forma de funcionamento
das instituições de controle do Estado e, possivelmente, da imprensa, é
compartilhada pelos petistas e pelos simpatizantes do governo petista.
Dessa forma, a democracia brasileira apresenta uma fratura. Nossa
democracia é um campeonato em que um dos clubes tem certeza de que o
juiz é ladrão e rouba sistematicamente contra si.
Qualquer pessoa que já assistiu a um jogo de futebol em que um dos times
tem certeza de que o juiz foi comprado pelo outro time sabe o tipo de
disfuncionalidade que essa percepção, independentemente de ser
verdadeira ou não, acarreta ao jogo.
Todo conjunto de regras é incompleto. Impossível colocar no papel todas
as contingências. Há sempre áreas cinzentas. Se não houver o
entendimento de que as regras são justas e simétricas, aquele que se
sente prejudicado começa a operar nas zonas cinzentas das regras.
Foi exatamente isso o que ocorreu no ano passado. A campanha
absolutamente violenta e mentirosa da presidente Dilma Rousseff, como
nunca se viu nesse país, foi motivada pelo sentimento de perseguição do
PT. O fortíssimo desequilíbrio das contas públicas -pedaladas e
contabilidade criativa, que contribuíram para nos colocar na atual
situação fiscal calamitosa e que, provavelmente, levarão à perda do grau
de investimento em 2016- foi em parte motivado pela vitimização do PT.
Os demais políticos não petistas, de oposição ou situação, dado que não
têm a leitura de que o PT é perseguido, leem a esticada de corda do
partido e a atuação nas zonas cinzentas de nossa democracia como sinal
de tendência hegemônica e autoritária. Filmes que circulam na web com o
presidente do PT sendo recebido na Venezuela em congressos chavistas
reforçam a percepção.
Essa leitura é agravada por anos de gestão de nosso presidencialismo de
coalizão em que a tônica foi o varejão no dia a dia da política, em vez
da negociação baseada em programas e compartilhamento de poder.
No momento que temos de renegociar os problemas estruturais de nosso contrato social, a conversa fica difícil.
extraídaderota2014blogspot





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