por José Casado O GLOBO
Quando antigas certezas perdem a validade, fazer perguntas certas já é avanço, porque respostas sobre a reconstrução do Estado parecem inviáveis em meio ao estupor com sua quebra
“Como é que a gente sai dessa?”
Ninguém respondeu.
— Não é apenas uma questão de “tira e põe” — ele insistiu. — Tira a Dilma e põe quem?
No breve silêncio parecia que alguns na sala da livraria, quarta-feira
passada, no Rio, recitavam mentalmente a linha sucessória da República.
Na ordem constitucional, a primazia é do vice Michel Temer (PMDB).
Alinham-se, em sequência, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), o
presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), e o presidente do Supremo
Tribunal Federal (Ricardo Lewandowski, até setembro de 2016, quando
será substituído pela ministra Cármen Lúcia).
Não se cogitou sobre coalizão partidária para apear Dilma e entregar o
poder ao PMDB dos bons companheiros Temer, Cunha e Calheiros.
Tampouco mencionou-se que os presidentes da Câmara e do Senado estão sob
investigação por suspeita de corrupção na Petrobras. E, assim, sequer
se discutiu sobre a legitimidade de liderança de um processo de
impeachment por alguém com imputações de maracutaias.
O Ministério Público pediu a abertura de processos criminais contra
Cunha e Calheiros. Se o STF aceitar a denúncia, abre a porta para o
afastamento de ambos do comando do Congresso.
Cunha, Renan e outros 30 envolvidos em supostos crimes contra a
Petrobras integram a maior bancada legislativa brasileira: a dos
denunciados em inquéritos e ações penais com risco de prescrição no
Supremo. Representam mais de um terço dos 594 deputados e senadores.
— Estamos encalacrados — ele quebrou o silêncio. — Qual a saída? E para fazer o quê?
Quando antigas certezas perdem a validade, fazer perguntas certas já é
avanço, porque respostas sobre a reconstrução do Estado parecem
inviáveis em meio ao estupor com sua quebra.
Mas é na política que se resolvem crises como a que está aí, ele acrescentou:
— Para fazer o que tem de ser feito, da infraestrutura à garantia do
pagamento das aposentadorias, você vai ter de convencer a sociedade.
Precisamos de mais sociedade. Se quer mudança maior, você vai ter que
falar ao país sobre as limitações das capacidades do Estado. Precisa ter
liderança para poder explicar e ter apoio, confiança, do país para
mudanças. Precisa de um bloco de poder, e não é só de partidos ou de
alguns setores da sociedade. Alguém vai ter de fazer isso, senão o
Brasil vai desandar...
Sugeriu-se o caminho da “Constituinte exclusiva”, com pessoas eleitas para votar uma nova Constituição, sem ser parlamentares.
— É um pouco artificial — retrucou. — Não há ruptura institucional. E
aqueles que iriam lá não conhecem o jogo da máquina pública. Desenhar um
novo futuro glorioso para o Brasil no gabinete é fácil, qualquer um
faz... Você tem é que convencer o país do caminho. Não tem outro, a não
ser pela via constitucional.
Lembrou-se das manifestações de rua em junho de 2013, quando Dilma foi à
televisão propor Constituinte específica para a reforma política.
Fernando Henrique Cardoso contou que assistiu ao discurso ao lado do
ex-ministro do STF Ayres Britto.
— Ele me disse: “Presidente, é o seguinte: a Constituição não dispõe sobre o seu funeral.”
Pois é, como a Constituição não prevê a sua morte, não tem outro jeito de fazer as reformas.
EXTRAÍDADEROTA2014BLOGSPOT





0 comments:
Postar um comentário