J. R. Guzzo Publicado na revista EXAME
O Brasil de hoje está, muito simplesmente, no tempo da colheita daquilo que seus três últimos governos, com o apoio decisivo do atual, semearam de forma sistemática, arrogante e obsessiva desde o dia 1º de janeiro do ano de 2003. Plantaram joio; estão colhendo joio. Desprezaram, com igual soberba, outras realidades expostas no velho livro. Ensina-se ali que existe um tempo de armazenar e um tempo de distribuir; quiseram só distribuir, e ainda assim distribuíram mal, porcamente e sobretudo para si próprios. Há um tempo para destruir e um tempo para reconstruir; ficaram apenas na destruição. Queriam o quê?
O país assiste no momento à tristonha agonia diária do ministro Joaquim Levy — o homem que deveria ser o funcionário mais importante do governo começa o expediente de cada dia, de manhã, sem saber se estará no cargo na hora do almoço, e muito menos no momento de voltar para casa ao fim de sua jornada de trabalho. Vê o amontoado de ruínas a que se reduziu o segundo governo da presidente Dilma Rousseff, cada vez mais empenhada em exercer o que parece ser sua vocação de capataz em obras de demolição. Raramente passam 24 horas seguidas sem alguma nova infâmia na economia.
O governo, pela primeira vez desde a instituição da Lei de Responsabilidade Fiscal, apresentou um orçamento, o de 2016, com despesas superiores às receitas; faltaram uns 30 bilhões de reais para pagar as contas públicas do ano que vem, mas talvez acabem sendo 80 bi ou sabe-se lá quanto. A produção industrial acaba de cair pelo 17º mês seguido, numa destruição frenética de bens e de empregos que leva a participação da indústria na economia brasileira a voltar aos níveis de 1940. O Brasil entrou oficialmente em recessão: cresceu zero em 2014, andará para trás em 2015 e possivelmente cairá de novo em 2016, uma sequência lógica do desempenho miserável dos quatro primeiros anos de Dilma e de sua devoção religiosa às decisões erradas. O que mais? Já chega assim.
Não há nada, nisso tudo, que venha da “situação atual”. Estava decidido lá atrás, com a chegada ao governo de forças que acreditam, entre tantas outras insânias, na quimera do efeito sem causa; querem isso, ou não querem aquilo, sem pensar que é indispensável praticar atos racionais para obter uma coisa e evitar a outra. Todo mundo é livre para opinar quando, onde e por que começaram os horrores de hoje. Uma boa escolha está no vírus fatal inseminado pelo ex-presidente Lula quando tomou a mais funesta decisão de sua vida política ao escolher Dilma como sucessora, num momento em que tinha a excepcional vantagem de poder colocar na Presidência, realmente, o nome que quisesse.
Lula achou que não haveria nenhum problema sério em dar o cargo a uma pessoa que jamais tinha sido eleita nem sequer para vereador, não tinha uma única realização de verdade em seu currículo e era portadora natural de uma inépcia devastadora para a tarefa de governar. Achava que Dilma ia apenas esquentar comportadamente sua cadeira durante quatro anos e entregá-la de volta na eleição de 2014. Mas a primeira coisa que ela fez foi decidir que não ia devolver coisa nenhuma — uma calamidade anunciada, diante de sua compulsão em escolher sempre o pior. Ao contrário, como disse, faria “o diabo” para ficar lá os oito anos que a lei permite. “O diabo” é isso tudo que vem fazendo desde sempre. É onde estamos, precisamente.
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