Roberto Pompeu de Toledo: Publicado na versão impressa de VEJA
Ao deixar a presidência do conselho de administração da Petrobras, em março de 2010,
ao mesmo tempo em que deixava a chefia da Casa Civil do governo Lula
para candidatar-se à Presidência da República, Dilma Rousseff
declarou-se “muito feliz” pelo desempenho da empresa nos sete anos em
que ocupou o cargo. “É um orgulho passar pelo conselho da Petrobras e
ainda mais presidi-lo. Você tem uma nova visão de Brasil, vê a riqueza do Brasil”, disse ela, segundo registrou o jornal O Globo (19/3/2010). Hoje a própria Dilma deve saber quanto viu tudo errado. Sua “nova visão de Brasil”
falhou em não alcançar o caso dos navios-sonda Petrobras 10 000 e
Vitória 10 000. Sua visão da riqueza do Brasil falhou em identificar a
direção dos bolsos a que tanta pujança escoava.
O caso dos
navios-sonda está detalhado na denúncia do procurador Rodrigo Janot
contra o deputado Eduardo Cunha. Somados, os dois navios custaram 1,2
bilhão de dólares ─ quantia equivalente à da compra da Refinaria de Pasadena
─ e resultaram igualmente inúteis. É uma injustiça que, até agora, o
Petrobras 10 000 e o Vitória 10 000 tenham merecido menos atenção do que
a refinaria. Da operação resultaram 40 milhões de dólares
em propinas, distribuídas, segundo a denúncia, entre o diretor da área
internacional da Petrobras, Nestor Cerveró, o “lobista” Fernando Soares,
vulgo Fernando Baiano, e o PMDB, representado por Eduardo Cunha.
Detalhes saborosos embasam a denúncia. Os dois
navios foram contratados separadamente. A história do primeiro deles, o
Petrobras 10 000, começa no primeiro semestre de 2005, e não começa dentro da estatal, com o anúncio da decisão de fazer o negócio e os preparativos para a respectiva concorrência, como seria de esperar. Começa quando a empresa japonesa Mitsui toma conhecimento de rumores de que a Petrobras precisava de um
navio para prospectar na costa da África. A Mitsui contata seu
representante no Brasil, Júlio Camargo, que por sua vez recorre a
Fernando Baiano, conhecido por sua “íntima amizade” (assim diz a
denúncia) com o diretor Cerveró, para saber se os rumores procedem.
Feliz casualidade! A Petrobras estava, sim, justamente pensando em comprar um navio, para operar na África. Seguem-se meses de entendimentos entre Camargo, Cerveró e Baiano, com o objetivo de driblar
a licitação e entregar a construção do navio à coreana Samsung,
parceira da Mitsui. Sucesso! Não se enfrentou nem o incômodo de submeter os trâmites com antecedência à diretoria. Nem a diretoria se incomodou em receber tudo já mastigado. Em julho de 2006 foi assinado o contrato, no valor de 586 milhões de dólares. Ninguém teve interesse em saber se haveria melhor preço no mercado.
Se foi tudo tão fácil, por que não tentar um
repeteco? Já em setembro daquele mesmo ano a diretoria internacional da
Petrobras se dá conta de que precisa de um segundo navio-sonda, agora para atuar no Golfo do México. Dessa vez o percurso é inverso. Fernando Soares é que, em nome de Cerveró,
procura Júlio Camargo. A intenção era, percorrendo o mesmo processo
expresso, sem concorrência nem questionamentos da diretoria, entregar o
contrato à mesma Samsung. Sucedem-se as reuniões, na sala de Cerveró, com a presença de Baiano e Camargo. Ao ser apresentado o contrato à diretoria, alegou-se que encaminhá-lo à mesma construtora geraria “economia de escala e vantagens operacionais”. Curioso é que, com tamanhas vantagens, o preço ficava maior ─ 616 milhões de dólares. Ninguém estranhou. O contrato para o navio batizado de Vitória 10 000 foi assinado em março de 2007.
Nenhum dos navios cumpriu sua suposta missão. O primeiro encontrou só
solos secos em Angola e foi recolhido ao Brasil. O segundo não teve
melhor sorte no Golfo do México. O grande sucesso foi a prospecção de ambos
nos cofres da Petrobras. O caso é exemplar da casa da mãe joana em que a
Petrobras se converteu sob Lula presidente da República, Dilma
sucessivamente ministra de Minas e Energia e da Casa Civil (além de presidente do conselho de administração), e José Sérgio Gabrielli presidente da empresa, nenhum dos quais viu nada. O caso de Gabrielli
é prodigioso. A denúncia do procurador, vasculhando os registros da
portaria da Petrobras, constata que Soares entrou e saiu sete vezes do
prédio, entre 11h09 e 18h41 em 14 de setembro de 2006, para citar apenas um dos dias de frenéticas negociações. Trabalhando no mesmo andar, ele não viu nada. Ou, se viu, não achou nada de mais no entra e sai.extraídadeaugustonunesopiniãoveja





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