VALENTINA DE BOTAS
A forma como a entendemos orienta nossas escolhas, sempre morais. Todos aqueles que, tendo intacta a porção da consciência que nos faz reconhecer o outro como um semelhante, angustiamo-nos com a agonia dos refugiados do Oriente Médio na Europa. Somado a essa sensação do humano dilacerado pelo deslize da evolução chamado consciência, o enternecimento esmagador na contemplação da pequena morte naquela praia turca: o garotinho Aylan Shenu exterminado pelo mal; a vida, o bem mais precioso, abatida pela treva.
A excelente reportagem de VEJA esclarece a complexidade da situação e da semeadura do mal que a engendrou, e o desespero dos que preferiram a morte quase certa na viagem à certeza da morte me faz pensar no desespero de quem não conseguiu fugir daqueles mundos tornados trevas. Ajudaram a adensá-las os erros das potências como invadir o Iraque, subestimar a guerra civil na Síria e superestimar os resultados da estéril primavera árabe; decisões equivocadas sim, porém de atores pertinentes à ordem geopolítica do mundo incurável.
Mas e quando um navio do Ministério da Defesa da insignificante Bolívia é apreendido com armas para o Estado Islâmico; e certo jornalismo culpa o capitalismo e a democracia pela catástrofe? Desmoralizando jornalistas confortáveis e seguros no conforto e segurança do sistema que acusam para satisfazer uma conscienciazinha degenerada que legitima o humano por atributos ideológicos, os refugiados procuram países democráticos e capitalistas, fugindo dos selvagens islâmicos tão enaltecidos por ela.
A sordidez de Evo Morales, miserável nulidade global irrelevante até no nulo agrupamento dos cafajestes das arcaizadas esquerdas latino-americanas, une abismo e caos, as duas faces da vida entendida apenas como força da natureza. A vida, então, só é valor se animada pelo sopro ideológico dessas aspirações fossilizadas. Nesse pensamento repugnante, ela não é dádiva da graça e da misericórdia divinas e, também por isso, o bem acima de todos os outros – é a ideologia o valor que mais alto se levanta e que a tudo impregna e submete.
O pragmatismo das relações internacionais não justifica a opção dessa escória por predadores do humano que comungam da mesma ideologia ocupada em satisfazer a fisiologia da sua natureza cega, bruta e infame: isso é uma escolha moral. Em contraste, que a imbatível delicadeza do pequeno Aylan caído se erga do pó que somos, abrande complicações e ilumine na consciência dos poderosos de boa vontade a vida como bem maior, dádiva e graça.
extraidadeaugustonunesopiniãoveja





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