editorial de O Globo
A Lava-Jato chega ao mensaleiro condenado José Dirceu, o acusa de ter também operado o petrolão e rastreia vários milhões em propinas destinadas ao ex-ministro
As investigações da Lava-Jato continuam a dissecar o código genético da
corrupção lulopetista, e as informações que sustentam a nova prisão do
ex-ministro José Dirceu fornecem peças para o quebra-cabeça da incrível
operação engendrada por um partido de esquerda que optou por se
perpetuar no poder com dinheiro desviado dos cofres públicos.
Dirceu, cumprindo detenção em regime semiaberto por ter sido condenado
no processo do mensalão, é agora apanhado por um arrastão da PF,
Ministério Público e Justiça Federal de Curitiba, dentro da Lava-Jato,
numa operação chamada de Pixuleco, lembrança irônica do termo usado pelo
tesoureiro petista João Vaccari Netto, preso há algum tempo, para
designar propina.
Aos poucos, surgem relatos que desvendam o início do mensalão e do
petrolão, esquemas, segundo o MP, arquitetados no mesmo bunker do antigo
ministro da Casa Civil de Lula, e executados paralelamente. Já tem
lugar certo na crônica dos escândalos siameses, na verdade um grande
esquema montado em estatais, reunião realizada no início do primeiro
governo Lula, em 2003, com pelo menos as presenças dos então ministros
José Dirceu, Antonio Palocci (Fazenda) e Miro Teixeira (Comunicações),
para discutir como obter apoio parlamentar a Lula. Havia duas sugestões:
conquistar parlamentares e partidos pelo convencimento e propostas de
governo, tese defendida por por Miro e Palocci, ou por via
“orçamentária”. Ganhou o uso do “orçamento”. E assim foi feito.
Agora, a Lava-Jato confirma o que também se suspeitava: se a corrupção
lulopetista, naqueles primórdios, era justificada pela “causa”, ou seja,
pela “redenção dos pobres", com o passar do tempo companheiros se
deixaram seduzir pelos prazeres da vida da alta burguesia, seus
“inimigos de classe". E foram, enfim, cooptados. Com uma enorme
diferença: enquanto burgueses gastam dinheiro próprio, lulopetistas
passaram a se valer da roubalheira do dinheiro público para azeitar o
próprio alpinismo social. Entre 2007 e 2014, os pixulecos destinados a
Dirceu somariam R$ 90 milhões. Agora, ao ser preso, foram bloqueados R$
20 milhões.
Foi registrado que Dirceu recebia propinas desde 2003, no primeiro ano
da Era Lula, e assim continuou enquanto era processado como mensaleiro,
no Supremo, condenado e ao cumprir pena na Papuda. Uma cabal
demonstração de que se sentia impune, um desrespeito às instituições,
entende, com razão, o juiz Sérgio Moro.
Não houve, desta vez, o gesto do braço esquerdo erguido com punho
fechado, coreografia da esquerda. Ao contrário de 15 de novembro de
2013, quando foi preso como condenado, Dirceu entrou sereno no camburão
da PF, em Brasília. Nem o PT, sintomaticamente, fez alarido. Depois da
reunião da executiva nacional, ontem, também em Brasília, a nota
divulgada repetia a de quinta: não citava o ex-ministro, já saudado como
“herói do povo brasileiro” em convenções passadas. Algo parece ter
mudado em relação a Dirceu.
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