por Mary Zaidan Com Blog do Noblat - O Globo
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva já não é mais o mesmo. Pouco
parece ter sobrado do hábil hipnotizador de plateias. Na sexta-feira,
durante a 5ª Plenária Nacional da Federação Única dos Petroleiros, nem o
macacão laranja - figurino que já usara em 2006 para anunciar, de mãos
sujas de óleo, a autossuficiência de petróleo que nunca veio - conseguiu
salvá-lo.
Reuniu pouco mais de uma centena para ouvi-lo mandar a sua pupila Dilma
Rousseff ir para as ruas, enquanto ele só tem falado sob a proteção de
quatro paredes. E entre amigos. Desta vez, no auditório da Escola
Nacional Florestan Fernandes, do MST, em Guararema (SP).
Como de costume, o objetivo era colocar-se como vítima e defensor
exclusivo da Petrobras, da qual o seu governo e o de sua afilhada
fizeram gato e sapato. “Se quiserem um brasileiro que tem orgulho da
Petrobras, eu estou aqui.”
Se caráter tivesse, se diria envergonhado. Pediria desculpas.
Empresa que já ocupou o oitavo lugar entre as maiores do mundo, a
Petrobras viu seu valor e sua credibilidade despencarem nos quatro
últimos anos. No ranking da revista Forbes divulgado em maio, caiu da
30ª para a 416ª posição. Postergado por meses, o balanço auditado da
companhia apresentou prejuízo de quase R$ 22 bilhões em 2014, o maior de
uma empresa brasileira de capital aberto desde 1986. E, confessamente,
escrito lá no balanço, mais de R$ 6 bilhões foram perdidos para a
ladroagem, cifra que a Polícia Federal considera timidíssima. A PF
calcula, por baixo, que a corrupção comeu R$ 19 bilhões da estatal. Um
rapa sem igual.
Não foram poucas as histórias da carochinha contadas pelo ex-líder das ruas.
Falou do mau humor que domina o noticiário, protestou quanto ao
tratamento que recebe e, sem indicar os protagonistas, reclamou do que
diz ser vazamento seletivo da Lava-Jato, rebatendo na tecla de que
querem acabar com o PT.
Perdoou a Dilma que ele disse ter mentido ao Brasil durante a campanha
eleitoral, rogando a Deus para que ela não perca a tranquilidade.
Insistiu na ladainha de que o cenário internacional é responsável pela
crise brasileira e escancarou um pecado desconhecido por seus
torcedores: a fórmula utilitária com que sempre tratou a massa que até
há pouco tempo ele inebriava. “Nas horas mais difíceis, não tem outra
alternativa a não ser encostar a cabeça no ombro do povo e conversar com
ele”, ensinou. Uma lógica que não deixa dúvidas quanto aos momentos em
que para ele o povo importa.
Lula é guloso. Saboreia o poder com prazer infinito. Lambuzou-se o
quanto pode. Mas é também um sobrevivente. Sempre soube se reinventar.
Como presidente da República, pediu perdão aos brasileiros pelo
mensalão. Ao deixar o cargo, negou a existência do que até a Lava-Jato
era tido como o maior escândalo do país, afirmando que até o resto de
seus dias brigaria para provar que tudo não passara de armação. Impingiu
a neófita Dilma e foi vitorioso. Fala mal dela, puxa-lhe o tapete para
afagá-la no dia seguinte.
Joga todos - o PT, Dilma e ele próprio - nas profundezas do volume morto, para tentar sair de mãos limpas.
Tenta imaginar-se como uma fênix, capaz de renascer das cinzas. Mas até Lula parece saber: seu encanto se quebrou.
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